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O TDAH não existe?

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Conheça a polêmica do livro do neurologista Richard Saul.

Já ouviu falar no Dr. Richard Saul? Não tenha vergonha de responder não. A maioria das pessoas não o reconhece. Mas isso vai mudar após o lançamento de seu novo livro ADHD Does Not Exist (“O TDAH não existe”, em português).

Após 50 anos de tratamento de milhares de pacientes com TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade -, Saul, um neurologista comportamental, declara que nenhuma dessas pessoas tinha TDAH. Ao invés disso, ele argumenta que eles apresentaram um conjunto de sintomas decorrentes de outras 20 condições e doenças que envolvem problemas de visão até transtorno bipolar.

O médico declara que o TDAH não existe e que nunca existiu. Isso provocou divergências entre seus colegas. “O livro é uma paródia de ignorância e propaganda contra o TDAH, um distúrbio que tem mais de 10 mil artigos em revistas científicas que comprovam sua validade e numerosos efeitos adversos sobre a vida das pessoas”, diz Russell Barkley, autor de seis livros relacionados ao assunto e especialista em TDAH reconhecido internacionalmente.

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O Dr. Edward Hallowell, autor do best-seller chamado Driven to Distraction, e uma autoridade reconhecida no campo do TDAH, concorda: ” Nenhuma autoridade científica responsável diz que o transtorno não existe. Saul é uma pessoa que quer, descaradamente, vender seu livro”.

A falta de controvérsia entre os especialistas é uma história completamente diferente na internet. Comentários e debates podem sair do controle rapidamente, levando à propagação de desinformação. Isso já começou em blogs e sites que cobram o lançamento do livro. Alguns comentadores reivindicam que o TDAH pode ser “curável” por um comportamento melhor por parte dos pais ou que não seja uma doença, apenas uma falta de disciplina.

“É muito importante para o público entender que na internet qualquer um pode ser um ‘especialista’, diz Gina Pera, autora do livro Is It You, Me, or Adult A.D.D.? e defensora do TDAH. “Os verdadeiros especialistas no assunto estão ocupados pesquisando, escrevendo artigos e tratando pacientes. Eles não gastam seu tempo na Internet comentando. Os leitores que se limitam aos sites, sem saber discernir o joio do trigo, promovem um grande desserviço”.

“O meu problema com o livro é o título”, diz o Dr. Hallowell. “É o que os editores chamam de ‘título de venda’, concebido para levar as pessoas a comprá-lo”. Hallowell acrescenta que concorda com algumas das afirmações do livro. Há um ponto válido e importante em seu livro, algo que o título infelizmente enterra. Ele está alertando as pessoas para o fato de que muitas causas diferentes podem levar a muitos dos sintomas resumidos ao diagnóstico de TDAH.

“É por isso que um exame de diagnóstico cuidadoso é tão importante. Louvo o Dr. Saul por apontar isto no seu livro. Um título mais preciso poderia ter sido ‘O TDAH não é sempre o que parece ser’”, comenta o Dr. Hallowell.

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O título é uma afirmação ousada, destinada a irritar as massas. E tem feito exatamente isso, visto que houve uma extensa cobertura da mídia ao redor do mundo. A maioria dos veículos usou o título do livro como manchete, o que implica que a premissa não é apenas bem pesquisada, mas também uma hipótese geralmente aceita. O que também não é correto.

“É difícil questionar que esse transtorno exista frente às centenas de estudos científicos que demonstram as diferenças no momento de maturação do cérebro e nos níveis de neurotransmissores”, diz Ruth Hughes, diretor executivo da CHADD (Crianças e Adultos com TDAH). “O TDAH é um transtorno médico verdadeiro, com diferenças cerebrais reais”.

“Pior, este livro contribui para o estigma do TDAH e dificulta o diagnóstico e tratamento de milhares de pessoas que legitimamente têm TDAH, cujas vidas seriam significativamente melhores com o tratamento”, completa Hughes.

© 2014, Newsweek

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