Connect with us

Para que serve a opinião?

Published

on

Paulo

Para que serve a opinião?

No Brasil pós-copa, o futebol, eixo de debate eterno de opiniões e preferências, cedeu espaço para o intenso debate sobre outros dois eixos igualmente espinhosos: política a religião. Com as redes sociais e a internet como território preferencial, opiniões dos mais diversos tipos são expostas o tempo todo, com uma intensidade crescente. Sem dúvida o debate dos grandes temas é importante, e conhecer as opiniões dos outros pode, sim, ajudar a formar um quadro mais completo. Neste sentido, é ótimo que tantas e tão diferentes opiniões estejam expressas por todo lado. Pode-se conhecê-las, pode-se gostar ou não gostar delas, concordar ou discordar. O mais relevante, mesmo, é que estejam todas expostas, às claras, livremente.
E é exatamente aí, nesta exposição plural tão positiva, que começa uma confusão estranhíssima que acompanho sempre nas redes sociais, nos comentários de artigos e blogs, nas seções de cartas aos jornais; nas conversas na rua: alguém expressa uma opinião sobre sua preferência política, por exemplo. Ótimo, é importante. Logo, alguém rebate com uma pergunta sobre uma questão que já entra no aspecto das escolhas individuais, como, por exemplo, casamento, ou a opção sexual, ou o direito de escolher ter ou não ter filhos. E em questão de minutos, estão ambos ofendendo-se por suas diferenças em relação a uma escolha estritamente pessoal.
Isso é muito estranho. Primeiro, porque duas pessoas que tem posições extremamente diferentes sobre algo assim, provavelmente, não vão compartilhar a vida uma com a outra. Mais provavelmente, viverão relacionamentos com outras pessoas; mas não com aquela da qual discorda tão veementemente. Ainda que sejam amigos, ou conhecidos, provavelmente permanecerão apenas assim. E aí, fica a pergunta: que diferença faz, para alguém, o estado civil ou a preferência de um amigo ou conhecido? Os amigos mais próximos, a gente acaba conhecendo como vivem. Mas, cá entre nós, amigos próximos são sempre alguns; um punhado. Ninguém tem duzentos ou quinhentos amigos próximos. Tem conhecidos, tem colegas. Voltemos um pouquinho no tempo: há trinta anos, sem as redes sociais; tínhamos uma quantidade menor de conhecidos – mas ainda assim, vários não eram amigos próximos. E nunca, ou quase nunca, sabíamos como eles viviam, com quem compartilhavam suas vidas, o que preferiam; e por aí vai.
A gente se relaciona com um numero enorme de pessoas no mundo sem jamais saber quais são as suas preferências. Até porque, isso não tem absolutamente nenhuma relevância, a menos que tenhamos a intenção de estabelecer uma relação justamente com aquela pessoa em particular. Exceto se você quiser dividir a sua vida com uma determinada pessoa, qual é a relevância dela querer ou não querer ter filhos, por exemplo? Absolutamente zero, completamente nula. Mas você já viu as pessoas expressando opiniões contrárias, e muitas vezes beirando o ofensivo, ao comentar o fato de que “fulana não quer ter filhos”. Ora, a menos que o seu maior sonho na vida seja ser o pai dos filhos da fulana, que diferença isso poderia fazer para você? E o mesmo vale para as preferências sexuais.
Só que eu vou dar um passo a mais neste assunto: o que vou dizer agora não é sobre EXTERNAR as suas opiniões: é sobre TER certas opiniões. Se alguém lhe perguntou, se teve a “licença” para falar, por favor, sinta-se à vontade. Mas o essencial é “mais embaixo”: Eu tenho várias opiniões que uso como balizas para a minha vida. Algumas delas, uso também em relação ao meu filho, que ainda é menor de idade. Mas porque eu deveria TER uma opinião sobre algo que não é uma questão na minha vida? (ou, ainda no meu caso, na vida do meu filho, sobre o qual tenho de fato uma responsabilidade…)
Se uma amiga minha gosta de mulheres, porque eu deveria ter alguma opinião a respeito disso? Se um amigo não quer ter filhos; porque eu deveria ter uma opinião sobre isso? Não; eu não apenas não expresso uma opinião sobre esse fato: eu não tenho e nem quero ter, uma opinião “minha” sobre a vida de um terceiro, num assunto que não me diz respeito.
Veja, eu não estou me referindo a COMUNICAR minha opinião. Considero ofensivo, deselegante, invasivo – na verdade a falta de educação mais básica – opinar sobre a vida de quem não perguntou.
Estou me referindo, a TER uma opinião. Vou ainda além: mesmo que eu fosse pai ou mãe de um deles: se são maiores de idade, em diversos aspectos, eles podem fazer (e farão, de fato) o que bem entenderem na vida, sem dever a mínima explicação a quem quer que seja. E veja bem: isso NÃO é uma posição pessoal minha; de modo algum: isso é um direito básico adquirido pelo ser humano ao completar a maioridade; tanto pela constituição desse país, como pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, elaborada pela ONU e da qual o Brasil é signatário.
E antes até da questão do respeito e dos direitos: para que serve? Qual a utilidade de uma opinião minha sobre a vida de outro? Que não foi pedida? Não foi solicitada?
Suspeito que possa existir uma razão “interna” bastante relevante para a “necessidade” de ter opinião, e ainda mais, de externar uma opinião que não foi solicitada: Enquanto pensa sobre a vida alheia, julga as escolhas dos outros, fala ou escreve sobre o que o outro pensa, veste, como ele se comporta ou com quem vai para a cama; o “palpiteiro” permanece no berço esplêndido da sua zona de conforto, inflado com a sensação de ser “a régua para medir o mundo”.

__________________________________________________________________________________________________________
Paulo Ferreira é Diretor de Comunicação da ONG internacional New Earth Nation; Conselheiro e Representante do Nikola Tesla Institute em SP e autor do livro O Mensageiro – O Despertar para um Novo Mundo. © 2014.

Advertisement

Continue Reading
Advertisement
Advertisement
Advertisement

Copyright © 2023 The São Paulo Times