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Podemos contar com o setor privado para deter a malária na África?

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Foto:Reprodução

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Duka la Dawa é como são chamadas as farmácias comuns na Tanzânia. Ao lado do estabelecimento, encontrei um homem em uma oficina mecânica consertando um motor de motocicleta, com suas peças manchadas de óleo colocadas sobre um pedaço de papelão.

Uma mulher passava vendendo mandioca equilibrando uma bandeja em sua cabeça. Entrei no Duka e perguntei o que o farmacêutico atrás do balcão tinha para malária, a doença transmitida por um mosquito que mata cerca de 1.700 pessoas todos os dias na África Subsaariana e no Sudeste Asiático.

Ele me ofereceu cinco tipos de medicamentos de diferentes marcas, qualidade e preço. Alguns eram terapias até tinham a qualidade assegurada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), porém outros eram bem menos eficazes, incapazes de combater os parasitas da malária resistentes a medicamentos que surgiram nos últimos anos.

Em alguns casos, esses remédios podem até acelerar a resistência contra a malária. Tragicamente, nessa parte do mundo menos favorecida, muitas pessoas vão escolher comprar medicamentos mais baratos com suas moedas.

Nos EUA, se você quiser um antimalárico, terá  que ir ao médico para obter uma receita. Esse procedimento garante que os norte-americanos são tratados apenas com os melhores medicamentos contra a malária.

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Mas não é o que acontece na maioria dos países africanos, onde médicos particulares são raros e os hospitais públicos ficam a quilômetros de distância, além de não atenderem a necessidade de suprimentos e funcionários. Na Tanzânia, os pais levam os filhos doentes até a Duka mais próxima e compram o que podem.

Isso contribui para um mercado não regulamentado em que os donos das farmácias vendem produtos de origem duvidosa, pois sabem que seus clientes doentes vão comprar, ainda que não seja a melhor escolha.

As organizações de ajuda estão tentando mudar isso: entre 2010 e 2013, 450 milhões de dólares foram destinados aos medicamentos de alta qualidade contra a malária, para que os proprietários de farmácias na Tanzânia e outros seis países africanos possam comprar e vender os melhores comprimidos a um preço baixo. Cerca de 130 milhões de dólares serão gastos em subsídios para os remédios ainda este ano.

Originalmente chamado de Mecanismo para Medicamentos Contra a Malária a Preços Acessíveis (AMFm), a estratégia de subsídio possibilitou uma mudança radical em relação aos tradicionais esforços globais de saúde. Pela primeira vez, os medicamentos passaram a ser vendidos diretamente para o setor privado informal, ao invés de serem doados aos hospitais públicos.

Quando o economista ganhador do Prêmio Nobel, Kenneth Arrow, concebeu o AMFm em 2004, ele e outros economistas descreveram a estratégia do tratamento da malária como a mesma usada pela Coca-Cola. “A Coca-Cola se baseia em preços baixos e o mercado rejeita a competição em aldeias africanas remotas. Então por que nós não podemos fazer a mesma coisa com medicamentos de alta qualidade?”, pergunta Ramanan Laxminarayan, um economista que auxiliou a comissão do autor da proposta AMFm.

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Dois anos após o AMFm ser lançado em 2010, o preço dos melhores medicamentos contra droga malária, os que contêm artemisinina – um ingrediente doce derivado do absinto chinês -, caiu em cinco dos sete países com subsídios AMFm.

Custando pouco mais de um dólar, os remédios ficavam um pouco acima do valor dos medicamentos de qualidade inferior. Como resultado, esses produtos de qualidade foram vendidos rapidamente a um ritmo sem precedentes.

Mas um grande problema permanece: ninguém sabe se as pessoas que compraram todos os medicamentos contra a malária tiveram malária.

A malária tem apresentado uma intensa oscilação na África, entretanto, as pessoas muitas vezes acreditam que quaisquer dores são sintomas da doença. Mas isso é cada vez mais escasso, à medida que as taxas de malária diminuem em todo o continente. Por outro lado, quando as pessoas têm a suspeita de que a malária está por trás da maioria das febres, elas compram medicamentos que tratam a malária.

“Como os remédios são baratos, as pessoas tendem a abusar do uso, pois pensam que se não forem curados da malária, eles gastarão muito pouco com o medicamento”, diz Chacha Mangu, um médico e epidemiologista do Instituto Nacional de Pesquisa Médica em Mbeya, na Tanzânia.

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O problema com essa estratégia é que a medicação abaixa a febre, mas podem mascarar a verdadeira causa do sintoma. O remédio não vai, por exemplo, matar as bactérias que causam pneumonia, infecções do trato urinário, muito menos vão ser eficazes contra as doenças virais, como a dengue.

O paciente com dengue vai até a farmácia, compra um antimalárico e vai para casa. Com o tempo ele descobre que a medicação não está funcionando e aí já pode ser tarde demais. Através do uso indevido de antimalárico, o medicamento que pode salvar vidas é desperdiçado.

Em resposta ao pedido da OMS, o governo dos Estados Unidos e de outros países, além da grande organização internacional que sediou o AMFm – o Fundo Global de Luta contra o HIV, a Malária e a Tuberculose – reformulou a abordagem neste ano.

Os cinco países – Tanzânia, Uganda, Gana, Quênia e Nigéria – que ainda recebem subsídios agora estão experimentando maneiras de incorporar testes de diagnóstico para o mercado livre. Qualquer um poderá aprender a diagnosticar a malária.

Os testes de diagnóstico rápido de hoje parecem com os testes de gravidez: coloca-se uma gota de sangue em uma fita branca e se espera 15 minutos para ver se uma linha vermelha que indica a malária aparece. Mas o objetivo das farmácias é obter um lucro. A questão é, por que vendem a medicação sem que o teste seja feito?

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Naquela mesma Duka, em Mlowo, o farmacêutico me disse que ficaria feliz em fazer o teste da malária nos clientes se cobrasse uma taxa. Perguntado o que faria caso o teste desse negativo, ele respondeu que se eu estivesse sofrendo de febre e dores que normalmente acompanham a doença, ele me venderia o medicamento da mesma forma.

Nos últimos anos, os economistas da área da saúde têm alertado os lojistas a respeitarem os resultados do teste. Uma das medidas possíveis é que eles cobrem um valor único para o teste e o tratamento, de modo que não haja nenhum lucro com a venda de um medicamento desnecessário. Essa conscientização, todavia, exige força regulamentar que a maioria dos países da África Subsariana não tem. Por esse motivo, inclusive, é que a mudança agora está sendo estimulada a partir do consumidor.
O objetivo é convencer os farmacêuticos que eles podem obter um impulso em sua reputação com a venda de testes. Se os resultados forem negativos, o recomendado é que eles indiquem aos clientes que procurem um hospital.

Na teoria, tudo isso soa bom e direito. Mas aconteceu o contrário em muitas clínicas particulares após um mês desta implementação piloto. Mesmo quando os testes eram negativos, mães com crianças doentes geralmente eram vistas transportando remédios contra a malária.

Sobre essa questão, Chacha Mangu diz: “É preciso haver médicos competentes para assegurar de forma convincente que uma mãe leve a criança para casa e espere alguns dias, recomendando apenas que ela beba água e descanse um pouco”.

© 2014, Newsweek, Inc. Todos os direitos reservados.

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