Poesias para sexta-feira

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Agora o The São Paulo Times conta com uma coluna dedicada a poesias chamada “Poética Urbana”.
Ela será publicada toda sexta-feira. Para colaborar envie sua poesia para poesias@saopaulotimes.com.br.

O Ciclista
(André Ricardo Aguiar)

À flor veloz
colhe o tempo
(pedal)
pé ante perigo
no risco de dar consigo

Centauro de rodas e aros,
meio homem, meio
de transporte

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A pena da bicicleta
escreve ruas
até que uma esquina
engatilha o ciclista
e dispara—

A pólvora do instante
o ciclo da vida

Tudo pássaro
e passageiro.

—-

Gestos
(André Ricardo Aguiar)

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Anterior ao sim, à concha,
os amantes se despiram
com um véu de fim de tarde
e um lance de escadas.

Um lance ambíguo: nenhuma
palavra a mais acrescentava
um menos de esperança
e acesa madrugada.

Foram se distanciando
no mesmo espaço breve
e peninsular de um gesto
só perceptível se susto.

Estamos quites, disseram
às suas almas embrulhadas
em perdizes: voaram baixo
para respectivas casas.

Amar, às vezes, é pisar
em asas.

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Leitura do morto
(André Ricardo Aguiar)

O morto
e seus pertences
concisos:

o imenso cais
de madeira exata
na sala

os dias inúteis
na próxima agenda

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e a eternidade,
salário:

de resto
um morto dispensa
comentários.

—-

Colheita
(André Ricardo Aguiar)

Palavra como um grão
– o debulhar, campina
ciente do geógrafo

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em pleno estio, súbita
seara – maré movendo
o convés da lua.

Assim o poeta
– fauno entre riscos –
e estreito como um beco

volta ao início
das coisas
que se ferem

e pica a agulha
o seu palheiro:

toda palavra é cicatriz.

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A alma do negócio
(André Ricardo Aguiar)

Não seria um bom negócio
fabricar rolos de esparadrapos
pras múmias que estão só trapos?

E não daria mais lucro
fazer uma linha de protetor lunar
só pra lobisomem usar?

Não seria um sucesso de vendas
tevês de ectoplasma
pra distrair os fantasmas?

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E que sucesso estrondoso
bruxas descendo em vassouras
com trem de pouso?

—-

Mudança
(André Ricardo Aguiar)

O deus de uma casa
não é igual ao deus de outra casa.

Dois terços de mim são raízes,
nenhum fôlego é alicerce.

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Mudar é um enigma
só para plantas.

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Poética Urbana. © 2014.

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