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Portrait: Como Barbies, só que não

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Camila

Como Barbies, só que não

Se na semana passada falei sobre o nigeriano que achava que ao comprar o creme dental estava levando para casa a mulher dos seus sonhos, hoje vou inverter o processo. Vamos falar sobre as mulheres que ele achou que compraria. Sinto lhe informar, mas elas compram até hoje a construção de si mesmas, mas não existem.

Quem viveu sua infância a partir de 1960, quando as Barbies foram criadas, sabe do que estou falando. Se você é mulher e sua família teve condição financeira de bancar isso, provavelmente você teve uma Barbie, seu carro, sua casa, suas roupas, e, claro, seu Bob ou Ken. Sendo a boneca a representação da mulher perfeita e infalível, o óbvio aconteceria: seu homem seria o reflexo de si, a tampa da sua panela: lindo, bem vestido, com cara de bem sucedido, tão perfeito tal qual ela.

E se na infância se brincava de mamãe e filhinha e na vida adulta se tornou mãe, se brincava de lojinha e se tornou empresária, a busca por se tornar a Barbie é eterna. Que mulher a partir dos vinte e poucos anos não comprou um creminho antirrugas, não fez ao menos uma drenagem linfática para eliminar gordurinhas, não investe pesado em roupas, sapato e cabeleireiro? Quem nunca fez uma dieta, ou se matriculou na academia em busca de um corpo esbelto e definido, atrás da cinturinha irreal da boneca? Tem as que foram mais longe e recorreram ao botox, ao silicone, à lipoaspiração e à rinoplastia.

Todas, raras exceções, e às vezes sem total consciência sobre isso, buscam ser Barbies: o ícone da mulher perfeita. Campanhas publicitárias endossam o perfil. Raramente uma foto não passa por Photoshop tirando gordurinhas, eliminado manchas, papas nos olhos e espinhas, afinando coxas. Isso quando, à base de maçãs, alface e, certas vezes, bulimia, as modelos não tentam chegar por si mesmas (e algumas, infelizmente, até morrem de anorexia) no resultado que o editor de imagem consegue.

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Em qualquer editorial de moda, a plasticidade das imagens, sem defeito algum, inspira o ideal, o glamour, a beleza incessante e irreal. E mais uma vez, se paga caro pelas roupas e se leva para casa a felicidade em sacolas que logo mais viram a frustração na frente do espelho. A roupa, caríssima, não ficou tão boa em você como na modelo. Claro, a vida, em movimento, não é feita de photoshop e nem de alfinetes.

Mulheres reais tem TPM, choram, ficam ansiosas por uma barra de chocolate ao mês, frequentam bares e inflam suas barrigas com chopp, caipirinha e uma porção de pastéis, enquanto discutem com as amigas suas imperfeições angustiantes e as soluções que viram na coluna de beleza da revista ou o novo tratamento que a dermatologista recomendou. Mulheres reais se decepcionam sim por não terem encontrado seus Bobs ou Kens, porque um dia, quando pequenas, sonharam em tê-los como as Barbies.

Ao perceber que nunca seremos como a boneca, passamos a aceitar também as imperfeições masculinas, quem sabe a barriguinha de chopp, algumas uma carequinha, um dente torto, um cara que ainda esteja correndo atrás de sua carreira e está em busca de ser bem-sucedido, o marido que demora a trocar a lâmpada e a arrumar o chuveiro, o que sai naquele dia para jogar bola quando você queria ir ao cinema.

Mulheres reais acordam cedo e vão à batalha. Colocam saia e salto alto, mas o blazer também. Elas estudam, são pós-graduadas, doutoras, tem Ph.D. São mães e assumem todas as tarefas que isso lhes compete. Cozinham, lavam, passam e trabalham fora. Quando não tem tempo para tudo isso, dividem a conta da empregada com o marido ou moram sozinhas e assumem a própria casa.

Mulheres reais são tantas em uma só que dificilmente caberiam no corpo esbelto da Barbie. Só conseguiriam manter a maquiagem como a da revista se não fossem tão ativas. Teriam cabelos perfeitos se não precisassem, rapidamente, amarrá-los em um rabo de cavalo que lhes desse agilidade de vez em quando.

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Mas no mundo atual, em que assumimos papéis tão importantes nas corporações contribuindo para o desenvolvimento e a economia do país, ter a Barbie e as lindas e perfeitas modelos como referência, ainda é um alento para nós, mesmo que distantes de nossa realidade. São elas quem nos lembram de nossa delicadeza e feminilidade.

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

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