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Portrait: O amor bochechado e cuspido

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Camila

O amor bochechado e cuspido

Você sabia que tem um nigeriano processando uma marca de creme dental porque em sete anos de uso seu “bom hálito” lhe rendeu uma bofetada e nenhuma mulher em seu currículo? Ele diz que usa o produto desde a primeira propaganda que afirma que assim as mulheres se interessarão por ele. E desde então, nem um convite para um café ou um chá foram aceitos. A última tentativa de beijar alguém acabou, literalmente, com um tapa na cara.

Levando em consideração apenas esta visão utópica do consumidor (e não a oportunista de querer tirar dinheiro e vantagem da situação), o homem não comprou um produto de higiene bucal. Comprou um sonho: a solução para suas frustrações. A cada tubo que adquiria, além de flúor e bicarbonato de sódio, levava para casa a esperança de achar a mulher da sua vida.

Desentubou, bochechou e cuspiu por sete anos sua baixa autoestima, seus medos e inseguranças, mas isso não foi suficiente. A boca ficava limpa, os dentes brilhantes, o hálito fresco, mas a mente e o coração, cada vez mais incrustrados. Tamanha foi a decepção e a falta de noção de que o que interessa numa relação entre pessoas é o todo e não a parte, que levou aos tribunais, e não ao divã,  o que acreditou ser “incompetência” da empresa, que, segundo ele, vendeu sonhos inalcançáveis.

A mesma lógica cabe aos que ligam para os números em cartazes colados em postes pelas cidades, que garantem trazer o seu amor em seis horas. Se você for muito inconstante, ou tiver em dúvida de quem quer na sua vida, tem a possibilidade de mudar de opinião, de namorado, marido ou admirador, quatro vezes ao dia! Caramba, o planeta leva um ano pra passar por quatro estações e você pode mudar de amor o mesmo número de vezes em apenas um dia. Será que não tem nada de errado aí?

Como podem um creme dental ou uma cartomante dar conta de sua vida e seus sentimentos? Ser a solução dos seus problemas? E ainda, transformar no outro (que muitas vezes não te conhece direito) a visão ou o interesse que tem por você? Não seria mais sensato mudar o seu comportamento? Perceber que não é a pasta de dente (embora beijar alguém com mau hálito esteja fora de cogitação) que fará alguém te enxergar e te desejar? Não serão o brilho nos olhos e nas atitudes, na sintonia do que se deseja viver e compartilhar, que chamarão mais a atenção?

E se ainda assim nada acontecer, perceber que talvez não fosse pra ser? Que outras oportunidades virão? Que a vida é dinâmica e pessoas vêm e vão? Que o creme dental poderia funcionar sim, meu caro, se você o utilizasse, além da maneira habitual, como um recurso para se transformar em alguém mais seguro – sem perder a sensatez – para as conquistas da sua vida?

Enquanto isso, a indústria de cosméticos, de produtos de higiene e a cigana com mandingas mil garantem que podem realizar em seu lugar o sonho que, por “n” motivos, você deixou de encarar, correr atrás e os desentubou, bochechou e cuspiu.

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

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