Connect with us

Sensitivas

Published

on

CassioZanata

Sensitivas

Um dia meu pai se agachou lá perto do açude, em São José, para me mostrar as sensitivas. Pelo menos era assim que ele as chamava, não sei se no botaniquês está certo. As sensitivas eram um arbustinho bem do sem graça, a não ser por uma peculiaridade: se você tocasse suas folhas com um graveto, elas se fechavam.

Claro que o menino se encantou. E claro também que aí a gente cresce, vira um adulto chato e complicado e descobre que a sensibilidade tinha uma função menos nobre e mais funcional. Na verdade, as sensitivas são plantas carnívoras, e a sensibilidade servia para, se algum inseto ali pousasse, a folha se fechava, o prendia e baubau bicho.
Muito bem. Só que, talvez como castigo por ter virado tão sabichão, as sensitivas sumiram. Não só de perto do açude de São José, mas de tudo que é canto. Posso dizer sem exagero que passei o resto da minha vida atentando para os cantos dos caminhos, as beiras das estradas de terra, procurando um arbustinho de sensitivas. Deve restar algum em Minas. Minas é a esperança que resta quando a gente acha que tudo acabou.

Em compensação, tenho visto muita falta de consideração por aí. Sempre me assusto com tanta moto passando entre os carros, buzinando. Leio cada vez mais notícias sobre velhos solitários, descobertos semanas depois de terem morrido. Fim de semana não passa sem que eu receba alguma ligação de algum call center , nos horários mais inconvenientes. Já fui a apresentações de empresas e presenciado muita arrogância e humilhação.

Sei não, mas isso deve ter alguma coisa a ver com o sumiço das sensitivas.

Advertisement

__________________________________________________________________________________________________________
Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

Continue Reading
Advertisement
Advertisement
Advertisement

Copyright © 2023 The São Paulo Times