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Sobre auto-ajuda, os americanos e o futebol

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MONO

Sobre auto-ajuda, os americanos e o futebol

Gostar dos EUA é uma das coisas mais genuinamente brasileiras que existem.

Ah que vontade que a gente tinha de ser esses caras.

Vai viajar? Disney. Vai comprar uma roupa? Made in USA. Gosta de uma marca, é americana. Vida boa? É lá.

Ok, faz parte. Mas além de chato, a gente começa a achar que os caras são o exemplo. E aí, junto com as coisas legais a gente importa as coisas ruins de lá.

E por isso, você entra na livraria e a primeira bancada inteira só tem livros de auto-ajuda.

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Não tem jeito, essa culpa eles não podem negar.

É de lá que vem o conceito que move a auto-ajuda mundial (e que tá começando a virar moda por aqui): a divisão entre vencedores e perdedores.

Faz parte da vida dos caras. Desde cedo você é criado pra ser um vencedor. Pra ser a cheerleader, pra ser o capitão do time de futebol, pra ter o melhor carro, etc.

Só que a vida real é Copa do Mundo. E nesse assunto, a gente sabe melhor do que ninguém que não dá pra ganhar sempre. Primeiro porque é difícil. Segundo porque são poucas as vagas reservadas para os vencedores e tem um estacionamento lotado de gente querendo chegar lá.

O medo de ser um perdedor dá um desespero na galera e quando você tá no meio da bagunça, qualquer mão que pareça amiga é o bastante pra você se agarrar.

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Eis que surgem, triunfais, os livros de auto-ajuda e os gurus de felicidade, sucesso, alegria e bons resultados.

Mas vamos pensar um pouco. A auto-ajuda no Brasil é um fenômeno. São os livros mais vendidos, as palestras mais procuradas, tem mensagens da Ana Maria Braga no começo do programa, uma praga que se espalha por aí.

Com tanta gente sabendo tudo que tem pra fazer me espanta que não haja 25 presidentes de empresas pra cada 4 auxiliares de escritório.

A gente devia ter só gente espetacular em cargos espetaculares, com ideias espetaculares fazendo coisas espetaculares por aí. E não é isso.

Acontece que a magia dos livros de auto-ajuda (e das guerras) é que eles contam a história dos vencedores, mas ignoram a dos perdedores.

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É fácil falar do cara que economizou milhões de dólares tirando uma azeitona de cada empada servida na companhia aérea e se tornou um guru do marketing e dos negócios.

Mas ninguém fala do cara que tirou a azeitona da empada da outra companhia aérea e mesmo assim ela continuou ladeira abaixo.

Fala menos ainda do cara que vendia azeitona e hoje deve estar falido.

A auto-ajuda simplifica o complicado, até parecer fácil. É óbvio que não foi a azeitona que livrou a bundinha do cara ali de cima de ser demitido. Mas a simplificação torna tudo mais próximo de quem lê. Talvez venha daí terreno fértil do Brasil pro assunto: vai ver a gente quer sucesso, mas do jeito fácil. A gente quer a sorte de um filho jogador de futebol, que conhece a dureza da vida mas chega longe e enche a família de orgulho e dinheiro.

Talvez.

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Vai saber.

Estranho mesmo é a gente adorar os americanos e ainda ser fã de futebol.

Esportezinho besta, que às vezes não tem nem vencedor nem perdedor. Tá louco.

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Diogo Mono. Redator publicitário, tenta ser escritor, será pai de família e continua sendo um observador das coisas do cotidiano.
© 2014

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