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Abaixo o racionamento

Abaixo o racionamento Cidadãos! – como diria Batman: a água está acabando. E com a falta da água, vem a dengue,…

By Redação , in Coluna , at 29/09/2015

CassioZanata

Abaixo o racionamento

Cidadãos! – como diria Batman: a água está acabando. E com a falta da água, vem a dengue, a nuvem de poeira, a catinga do passageiro ao lado no metrô, os escorpiões. A cada dia, alguém prevê nova desgraça, provação, castigo digno de Antigo Testamento, praga do Egito em plena Desvairada.

E pensa que isso chegou assim, do nada? Nada. Pondo reparo, não é de agora, não. Começou bem antes, veio vindo…

Começou com a escassez de bom dia. Notada primeiro pelos porteiros, empregadas, jornaleiros e garçons. Invadiu as portas dos trens, tomou
a forma de epidemia entre motoristas. A moça da CET, então, nunca que viu cor de bom dia. Deixamos escassear as gentilezas, cada dia mais miseráveis.

Então o racionamento chegou às visitas. Visitávamos tanto uns aos outros. Aparecíamos na casa de fulano, sem avisar, com uma garrafa de vinho, às vezes com umas florzinhas vagabundas, só para uma prosa. Ou para filar um salame ou tremoço. Isso foi acabando, feito aquela bica que tinha ali e… onde ficava, mesmo? O que houve conosco?

Telefonemas foram suprimidos. Falas ao ouvido foram trocadas por mensagem lacônicas na tela do celular. Rareamos o ridículo. De repente, demos para nos achar importantões. No futebol, por exemplo: saíram os Paçoca, Gaguinho e Banzé, entraram os Carlos Afrânio, Cleison Anderson e Émerson Augusto. Perdemos feio. E pouco a pouco, fomos nos evitando, nos escondendo, nos racionando.

Pizzarias regularam nas azeitonas. Taxistas sumiram com o papo leve, bom, trocando-o por uma cruzada irritante pela volta de velhos políticos desonestos e da pena de morte, ô, desânimo. A decência sumiu – decência, não caretice, vamos esclarecer. Dona Convivência foi sequestrada e ninguém pediu resgate.

Para piorar, Tons e Vinicius se foram. E as peças de reposição não estão dando conta.

Pensar que já houve abundância de tempo. Abundância. Palavra simpática, parece querer dizer bundar. Ou excesso de bunda. Mas de repente, o tempo deu de faltar. Os minutos saíram numa correria besta, depois foram as horas. É tarde, é tarde, é tarde, muito tarde.

Racionar significa uso racional, racionalizar. Muito bem. Mas tão difícil ser racional hoje em dia, com aquela menina sumida à solta por aí,
esbanjando seu sorriso torto mas tão direito, gastando sem pensar na sede que a gente fica. Eita, dei para racionar juízo. Foco no racionamento, seu Cássio!

Desapareceu a boa gentice sem interesse. Assessoramos encontros para lugares inacessíveis. Deixamos evaporar as risadas. O resultado
está aí. Secamos.

Que essa crise toda sirva só para um bem feito: ao menos nos faça mais solidários. Que caia a ficha geral, afinal, que existe – olha! – gente do lado da gente. Que estamos todos no mesmo barco (péssima imagem, já que o problema é justo a falta de água).

Nem precisamos nos encharcar de solidariedade. Pororocar ajudas. Canalizar lágrimas de crocodilo para as nascentes do Cantareira. Menos, muito menos. Um veiozinho de atenção já seria um começo. Vai lá, um acenar de cabeça a princípio disfarçado, chuviscoso, seguido de uma
prosa meio garoinha.

Racionemos, cidadãos. Mas não delicadezas.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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