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Saturday, February 27, 2021
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A aranha no escuro

Voltando para casa a pé, debaixo da luz fraca de uma garagem, passo entre uma árvore e uma folhagem, e…

By Redação , in Brasil Cássio Zanatta Mundo São Paulo , at 08/12/2020

Voltando para casa a pé, debaixo da luz fraca de uma garagem, passo entre uma árvore e uma folhagem, e sinto uma teia de aranha se emaranhar em meu braço.

     O contato de uma teia com a pele nada tem de agradável. Parece um fio de seda ultrafino, invisível com pouca luz, e ainda faz cócegas. Mas não é caso de rir, porque o fio tem uma certa viscosidade, gruda no corpo e parece não querer mais largar, por mais que a gente tente se desvencilhar. E o pior: uma teia de aranha costuma vir acompanhada de uma aranha.

     Se eu fosse Francisco de Assis, cantaria para a aranha “Jesus, Alegria dos Homens” num gesto de boa vontade. Mas não sou santo nem cantor, sou um sujeito cansado, voltando do trabalho às oito e pouco da noite numa rua escura, e não tenho pelo bicho nenhuma simpatia.

     E se for uma viúva negra? Ela pode me picar e baubau. Mas já ando meio derrubado por outras picadas. E se for uma armadeira – calma, elas não fazem teia. Ou fazem? Mas o que faz uma viúva negra em São Paulo, com tão pouco mosquito, espaço e pretendentes?

     Acontece com as aranhas o mesmo que com as abelhas? Quando elas picam, morrem? Ou isso é lenda? Uma história que os humanos criaram para se conformar com a dor da picada?

     Bato nos braços tentando me livrar da teia, torcendo para que isso não ofenda a aranha, que deve estar escondida em algum canto. Gosto de imaginá-la chateada, a teia era para capturar uma abelha, uma mosca das grandes, não esse sujeito esquisito se estapeando em plena rua.

     Coisa que muito impressiona nas aranhas é o macho procurar a fêmea para copular, sendo 20 vezes menor, e sabendo que ela, ato consumado, vai tentar devorá-lo. O instinto é maior do que o bom senso e ele insiste. Não, dona aranha, não sou um macho pequenino (quer dizer, em relação aos humanos, até sou), caí nessa teia por acaso, meu instinto não a acha atraente, suas patas não me provocam, seu abdômen desproporcional não me seduz, quero me afastar o mais rápido possível.

     Das aranhas, só simpatizo mesmo com as papas-moscas, que são pequeninas, andam aos saltos e não fazem mal algum – à gente, não às moscas.

     Não sinto mais a teia. Acho que, de tanto pular na calçada, acabei me desvencilhando. E nem sinal da aranha. Ou ela nem está mais ali? Foi há uma semana para um lugar mais quente, Batatais talvez, e deixou só essa teia para lembrar da sua passagem e assustar os desavisados na noite?

     Tanta coisa a apavorar a gente hoje em dia, não precisava a teia. É essa pandemia, gente falando sozinha, sofrendo, o entendimento tão pouco, as músicas que fazem sucesso sem nenhum merecimento… E pairando sobre tudo, a política tão errada.

      Sigo na rua deserta e tão escura quanto antes. Um guarda dá um apito longo. Um desânimo me invade: o meu país, o que será do meu país? O desânimo vira aflição. Satisfeita agora, dona aranha?

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