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Thursday, July 9, 2020
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A árvore de passarinho

Estou no lugar a que pertenço. Vejo as árvores, nuvens e morros que me moldaram. Longe dos muros pichados, da…

By Cássio Zanatta , in Cássio Zanatta News & Trends , at 09/08/2016 Tags:

Estou no lugar a que pertenço. Vejo as árvores, nuvens e morros que me moldaram. Longe dos muros pichados, da luta por tudo, onde vale até dedo no olho, e da violência que não é só do assaltante, mas da menina que mendiga e todo mundo acha normal, do ônibus que fecha, do ronco da avenida. Estou longe e quero ficar assim, enquanto der. Tenho consciência da minha alienação e talvez seja uma ridícula defesa.

Nessa época do ano, venta muito de manhã. Um sopro forte e descoordenado, que assanha cabelos e composturas. Mas às dez horas, ele para, misteriosa e pontualmente às dez, o ar sossega. Como se São Pedro tivesse acertado o despertador para saber a hora de desligar o interruptor dos ventos da manhã na divisa de São Paulo com Minas Gerais, e fosse então cuidar de uma chuva no Nepal ou um pôr do sol em Caiscais.

Agora que o vento parou, posso seguir.

A família toma o café da manhã no quintal, aproveitando o sol de julho, menos machuquento que o de verão, mas forte para vencer o frio. O gato do vizinho assiste à cena de cima do muro e não parece impressionado. Já fui à padaria comprar broas e elas fazem bom par com o café de coador.

Sou tão mais o café de coador que o expresso, ele é mais favorável à prosa e orna com a toalha bordada há tantos anos. Leva mais tempo para ficar pronto, mas a ideia não era essa, a pausa para o café? Ou talvez minha antipatia venha desse nome, expresso, que parece apressar a gente e nada de correria, aqui, não.

Meu lugar à mesa fica de frente para o plátano que eu e Beatriz plantamos, ainda namorados. Virou árvore. Plátanos não dão flores e frutos, mas a gente, sim: lá estão Maria e Pedro dando cabo das broas. Nessa época, o plátano perde todas as folhas, elas secam e caem, ficam só os galhos, pelados. Pelados de folhas, digo, porque estão coalhados de passarinhos. Uns trinta, de tantas cores que parecem flores, para glória do plátano, que nunca as teve. Árvore que dá flor, tem muita; mas que dá passarinho, eu nunca tinha visto.

Alguém toca a campainha, o som é alto, feio, violento na sua inútil tentativa de interromper este momento. Não podemos atender, estamos ocupados demais, lembrando de uma passagem do avô. Passe mais tarde, agora estamos rindo e desculpe-nos se hoje isso é meio ofensivo.

Pois então o cidadão tem mulher, menina, menino, morros e até algumas nuvens. Um solzinho que dá preguiça e um vento que a tira. E uma árvore de passarinho. O café e as broas nem precisavam estar tão bons.

Amanhã tenho que voltar. Mas só amanhã. E o arrepio que dá em pensar no amanhã, o vento soprou forte e levou.

 

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