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Wednesday, July 8, 2020
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A chuva de gelo

Na Paulista para resolver umas chatices. Saio do metrô, dou de cara com um céu escuro, mais que escuro, preto,…

By Cássio Zanatta , in Cássio Zanatta News & Trends , at 10/01/2017

Na Paulista para resolver umas chatices. Saio do metrô, dou de cara com um céu escuro, mais que escuro, preto, e uma ventania doida, de avacalhar composturas. Um raio fulmina a pressa, corro ao café na galeria para fugir do temporal, que há limites para a valentia nesta vida.

Desaba uma chuva de granizo, bicho feio. Pedras de gelo caem com vontade sobre a marquise, parecendo anunciar o fim dos tempos na batucada. Caem também sobre as capotas dos carros que, presos no congestionamento, não têm como se abrigar. Podia ser pior: olha aquele ali de bicicleta, levando gelo no cangote.

Engraçado como essas violências da natureza nos fazem solidários na marra. Homens que, há pouco, disputávamos espaço no metrô, amores e empregos, nessas ocasiões passamos a nos preocupar com o outro. Comentamos o dia, dividimos as dificuldades, rimos dos tropicões, como velhos conhecidos. Torcemos e comemoramos cada final feliz. Oferecemos ajuda ou, pelo menos, um drops. Quando um se safa a tempo, vibramos feito crianças na matinê do cinema.

Esse barulho me lembra da gente menino, achando lindo aquele gelo branqueando a grama, enquanto vó Guiomar convocava as filhas, minha mãe e tias, para rezar o terço e pedir proteção para os cafezais em volta da cidade. Não tínhamos noção do prejuízo que as pedras podiam causar, para nós era só lindeza. Acontecia até de um dos nossos sair correndo debaixo do toró, para trazer uma pedra das bitelas. Quando os troféus mais valiosos não estavam nas estantes – aliás, nunca estiveram.

Fico com esses pensamentos, deixei o café esfriar e perder a graça. Graça tinha uma prima que dizia estar chovendo granito. O que não deixa de ser um alívio ao estrago: imagina o desespero se chovesse mesmo granito sobre os carros, machucando capôs e vidros como pés de café, com seus grãos e folhas espalhados na terra. As coisas foram bem feitinhas nesse mundo, a gente que tem a mania de quebrar os brinquedos.

Agora chove bem, mas é apenas água. Passou o vento, passou o escuro, a nuvem passou, passou até minha vontade de convocar todos ali no café a fazer uma corrente e pedir proteção para o sujeito na bicicleta. Ou cantar Caymmi, para fazer o tempo passar com dignidade. Ou oferecer um conhaquinho a um outro mais molhado, para evitar um resfriado. Mas parece que, como tudo, a solidariedade também passou.

A Avenida não é mais o cenário do Apocalipse. Ao contrário: as poças no asfalto refletem os prédios de vidro e as nuvens que passam rápido, anunciando a volta da pressa. De vez em quando deixam vazar alguns raios de sol, o céu mandando uma mensagem de desculpas e paz ao mundo.

Saio da galeria, encaro a chuva, agora bem fina, e afundo a perna na poça.

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