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Monday, August 10, 2020
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A corda

Sei o quanto essas mãos já titubearam, em quantos apuros me meteram, mas, Deus, não era hora. Era preciso segurar…

By Redação , in Cássio Zanatta , at 07/07/2020

Sei o quanto essas mãos já titubearam, em quantos apuros me meteram, mas, Deus, não era hora. Era preciso segurar com o vigor e empenho que nunca houve. Cada braço dispor de todos os músculos, ossos, tendões e pinos nos ombros. Convocar a máxima força, a física e a de vontade, para não soltar e suportar o suplício sem um gemido.

Às pernas também cabiam sacrifícios: dar apoio, sustento, equilíbrio, para que a força pudesse resistir. Os joelhos que suportassem, as coxas gemessem, a sola sangrasse, e o suor no rosto, que não descesse da testa até penetrar nos olhos, era preciso.

A corda queimava as palmas. A cada minuto crescia o ardor, o que exigia o alternar: soltar uma das mãos para descansar, o que aumentava a responsabilidade e sofrer da outra. Depois, inverter a pegada, o que só garantia que a dor aumentasse, vislumbrando a soltura a 23 centímetros do insuportável.

Se você soubesse, teria deixado as mãos alertas. Feito exercício, pego na enxada, agarrado o galho, levado palmatória, laçado gado, criado calo e, acima de tudo, deixaria de passar aquele creminho ridículo. As mãos deviam estar mais preparadas, tanto a superar nesta vida.

Era essencial que a corda de sisal resistisse. Caso desfiassem, exporiam a inutilidade das mãos, do corpo, do homem. Nossa Senhora da Suspensão, olhai por essas tranças, fortificai esses nós, santifique toda a tensão, senão será o diabo.

Hércules, meu Hércules (o deus para o momento), por que me abandonaste?

Uma mosca pousou na corda e assistiu ao esforço com misericórdia. Uma súplica em cada um de suas centenas de olhos facetados. No segundo seguinte voou, por entender o que um micrograma de sobrepeso poderia causar.
Um alento: no ar, surgiu desenhado o amor. De joelhos, olhos chorosos e mãos juntas a implorar que ele aguentasse. Patético assim, num desespero tão vulgar que o sentimento diminuiu na mesma hora, até sumir.

Mãe do céu: um dedo desistiu e soltou a corda. Há sempre um suicida entre nós. Mas as palmas e pulsos estão e seguem firmes.

No que as mãos começaram a fraquejar. De longe dava pra constatar que nascia o grande vacilo. Mas não dessa vez, a ordem era para suportar, desprezar qualquer sensação, inventar uma adrenalina que cegasse o esforço, um torpor à prova de cansaço. Agarrar a corda. A todo custo e espasmo.

Do contrário, o mundo viria abaixo. Inapelavelmente. Num estrondo ouvido em Urano, um desespero cósmico, que esmagaria todas as formigas, praias e esperanças, soterrando qualquer saída.

E para todo o sempre, a culpa seria sua.

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