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Friday, January 22, 2021
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A estrada sem fim

 Das estradas partem os caminhos. Pensam trilhar uma reta infinita, quando surge uma placa sugerindo uma saída. Onde vai dar?…

By Redação , in Cássio Zanatta Coluna News & Trends , at 24/11/2020

 Das estradas partem os caminhos. Pensam trilhar uma reta infinita, quando surge uma placa sugerindo uma saída. Onde vai dar? Sigo reto, ignoro a alça de acesso? E quem me garante que meu destino não é por ali? Se eu pegasse esse desvio, eu nunca mais me encontraria? Seria um outro, paleontólogo ou mágico? Dominaria a língua das galinhas? Entenderia o motivo pelo qual alguém sonha em ser bandeirinha quando crescer?

     Numa estrada há muitas possibilidades. No entanto, insistimos nos caminhos de sempre. Que, mesmo recapeados, duplicados, sinalizados, continuam velhos. Um buraco é tão somente a constatação de que o asfalto está muito cansado e sonha em conhecer o Japão.

     O alívio em saber que o motorista do caminhão, que iria perder o freio e passar por cima de mim, resolveu comer mais um pastel com guaraná no posto da estrada, assim adiando nosso encontro fatal.

     Na beira da estrada há muitas moitas. Observam atentas a passagem dos carros, e sabem pelo barulho do motor a diferença entre os novos e os com direito à aposentadoria. Adoram balançar com o vento que sopra nas beiras. E gostam muito quando, no acostamento, passa uma carroça sem pressa, e não se importam se o cavalo empacar para arrancar um naco delas.

     Voam urubus, um bando de andorinhas, um ou outro gavião e, feito um milagre, um tucano. Tudo passa despercebido pelo radar e pelo motorista ocupado em ultrapassar uma Kombi dirigida por uma velha de bobes. Pobres dos cachorros que resolvem atravessar a estrada bem na hora.

     E que mentira deslavada é essa de que o sol se põe no oeste? Balela. O sol se põe exatamente à frente dos motoristas, esteja indo para o sul ou para Ourinhos, dificultando (quando não cegando) sua visão.

     Os carros deviam aproveitar mais a viagem, mas só pensam em acelerar para chegar rápido. Haverá sempre um carro com três crianças se estapeando no banco de trás, só pausando para perguntar ao pai se falta muito. Quanto maior o congestionamento e o calor, maior a chance de uma delas vomitar.

     Nada de sinal no celular. Mais à frente tem uma parada com um banheiro inesperadamente limpo. Os olhos-de-gato ali desde 1984 já estão com catarata. E no que pensará a cobradora do pedágio ao ver se aproximar um carro tocando “Feelings”?

     Há quem ame o cheiro de gasolina, há quem odeie o cheiro de gasolina, e disso nada podemos concluir.

     Retorno a 2 km. Quer dizer que podemos voltar para desfazer as bobagens? Ou esperaremos para sempre no acostamento? No fundo, as placas de Proibido Ultrapassar querem ser desrespeitadas, quem sabe haja um acontecimento que quebre a insuportável rotina.

     Qual dos passageiros romperá o silêncio constrangedor? Por que o ar-condicionado do carro resolve ter um troço nos primeiros dias do verão? Como pode, 28 estações no rádio e nenhuma música razoável? Imagine a dificuldade do sujeito que pinta o nome das cidades nas placas para fazer caber Itaquaquecetuba. E por que ao guarda rodoviário é expressamente proibido sorrir?

     Duas horas de estrada e nenhum pensamento que preste.

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