A menina comum

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A ideia da Tia Luísa era boa. A brincadeira era simples: cada grupo de crianças deveria escolher uma palavra, ir até a frente da sala e pronunciar a palavra sem emitir som, apenas mexendo a boca.

Aos outros grupos cabia a tarefa de descobrir a palavra escolhida.

Diversão garantida, lá foram os meninos para um lado, as meninas para outro, e as escolhas começaram.

Verdadeiros dicionários mentais sendo revirados na busca da palavra mais dificilmente compreensível.

Julio, que sempre era o mais agitado da classe, começou.

“Inconstitucionalissimamente”, gritou a Paulinha.

Vez da Andréa, com sua voz irritante.

“Paralelepípedo, essa foi fácil!”, humilhou o Jorginho.

Rubens tomou seu posto.

“Magistrado!”, gritou a Aninha, no que foi interrompida por Tia Luísa:”Palavrão não, crianças”.

Era vez da Camila.

Camila era uma criança comum.

O máximo que se poderia dizer da menina era isso.
Não se destacava, nem pro bem, nem pro mal. Tinha algumas amigas, mas não muitas. Ia bem em algumas matérias, mas não sempre. Não era boa de educação física. Mas também não era ruim.

Se tem uma coisa que faz mal para uma criança é ser comum.

Ninguém lembra dela nos álbuns de escola.

Ninguém sente falta dela nos grupos de WhatsApp que serão formados no futuro para reencontrar antigos amigos.

Ninguém tem certeza de que ela participou daquela festa ou estava no recreio quando aconteceu aquele fato inesquecível.

Por causa disso, ninguém deu muita bola quando ela chegou na frente da sala e começou a mexer a boca.

Silêncio….

Ela repetiu.

Mais silêncio ainda…

“Não entendi.. fala de novo”…

Nada….

Um biquinho curto, uma abridinha na boca, e nada…

“Articula mais, Camila” disse a tia Luisa.

Ela tentou… E nada.

Ninguém sabia o que ela estava dizendo.

Nem a tia Luisa, que se levantou e pediu para que ela sussurrasse a palavra em seu ouvido.

A classe desistiu.

Todos se perguntavam qual era a palavra que Camila tinha escolhido.

E ela ria, sozinha, feliz com toda aquela atenção que nunca tinha recebido.

Os amigos se aproximando, perguntando, se importando com ela pela primeira vez.

Até que ela falou, alto o bastante para todo mundo ouvir: “Pum!”

Poucas vezes aquelas crianças riram tanto.

O pum derrotou o magistrado, fez bonito como o paralelepípedo e humilhou o inconstitucionalissimamente, que ninguém nunca soube quando usar.

E a Camila, agora Camilinha, escreveu seu nome na história do colégio, foi venerada por anos por sua coragem, organizou o grupo de WhatsApp para reencontrar antigos amigos e foi lembrada pelo resto da vida pelos colegas.

A diferença entre o comum e o extraordinário pode ser um simples pum.

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