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A morte da estrela

A morte da estrela E ontem mesmo, de noite, ela nos apareceu. Venceu o céu de tanta nuvem, as luzes…

By Redação , in Coluna , at 15/12/2015

CassioZanata

A morte da estrela

E ontem mesmo, de noite, ela nos apareceu. Venceu o céu de tanta nuvem, as luzes falsas da cidade e, num segundo, faiscou na sala. Menos brilhante do que o normal, estranho, acendia e apagava, parecia ser mal contato, ou eram nossos olhos que já embaçavam?

Com que facilidade sua aparição faz-nos rir ou chorar; sua presença comanda, impõe atenção, escancara a boca, nos obriga a depor as armas e, com as mãos livres, batemos palmas. Mesmo achando a cena besta ou datada demais ou sinceramente cafona – nesses casos em especial é que sua magnitude ganha majestade.

Repare: a estrela não morre de repente. Luta para não se apagar, arranha o tempo com as unhas, dentes, rugas, é uma luta linda e, quando a gente julga que murchou, ela volta a cintilar ao foco do spot. Daí ora é Callas, ora Andrômeda. Duncan ou uma das Plêiades? É musical, cometa? Despencou do trapézio ou da constelação de Libra?

Se a gente apertar o pause e nunca mais desapertar, ela promete brilhar para sempre?

E para onde vão as estrelas quando morrem? (Pergunta válida também no caso dos namoros, dos hipopótamos, das cartas nunca enviadas e do tio Precildo.) Desaparecem é que não, continuam vivas como luz que viaja no espaço, mesmo que o astro já tenha morrido há anos-luz.

Mas, um momento: o lume que a gente julgava extinto, era só pausa, voltou a clarear a vida da gente em raios fúlgidos (pensou que isso só acontecesse no Hino Nacional, né?) Vamos, plateia, de pé e boca aberta, aplaudamos, aplaudamos; ela não morreu, nós não morremos. Nossa galáxia resiste.

Mas sempre chega a hora da estrela morrer. O pano cai mesmo para o alto.

Fim. Sobem os créditos finais.

Também um pouco da nossa vida sai de cena. Então a gente desliga a televisão, acompanha a descida lenta da cortina, apaga as luzes do palco, pega o ônibus em frente ao cinema. Num silêncio em que se poderia ouvir uma camisa sendo abotoada.

E levanta os olhos para o céu. Só para dar aquela conferida.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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