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A morte do garrote

em Cássio Zanatta/News & Trends por

De quem foi a ideia, afinal, de quem? Não pergunto por aquela de abater o garrote para fornecer carne a mais de trinta pessoas durante as férias na fazenda. Isso faz sentido. Quero saber de quem foi a ideia de levar as crianças para apreciar o espetáculo.

Se a intenção era apresentar a elas o horror que há no mundo, para ir tirando das cabecinhas de oito, dez anos, que isso aqui não se resume a flores, nuvens e paçoca, entendi.

Fomos sem saber muito bem a que espetáculo assistiríamos. Talvez fosse para ver um potro sendo domado ou a colheita da cebola ou coisa assim. Íamos tagarelas da vida, gastando todas as palavras que depois se calariam por horas, assustadas.

O pouco mais que um bezerro entrou e, o pior, nós o conhecíamos. Ele nascera há alguns meses, era todo preto e bem arisco, fugia de qualquer aproximação nossa.

O primeiro susto foi ver amarrarem o bicho. Ele lutava contra aquilo, eles o derrubaram com cordas amarradas às patas. Mugia em desespero, sabíamos que ele o fazia para chamar a mãe. Onde estava ela que não aparecia, distribuía chifradas nos caboclos e salvava sua preciosa cria?

O talho com a faca no pescoço fez o animal se ajoelhar, enquanto o sangue saía em jato pelo pescoço. Um de nós saiu correndo, os outros gritavam, reclamando pelo bicho. Desculpem as almas sensíveis pela crueza do relato, apenas conto como aconteceu.

Aos poucos, ele ia sossegando. Perdendo a força, apagando lentamente até se entregar. Mesmo morto, continuava a lutar por viver. Seus músculos tinham espasmos, tremiam, reclamavam a volta da vida e era inevitável que algum menino dissesse: olha, ele não morreu! Então algum adulto dizia que eram só reflexos, um último tremilique do corpo. Baubau, esperança.

Seus olhos não se fechavam, para sempre olhando para o alto, petrificados com a salvação que não descia do céu. A língua de fora, o chifre pequeno, mal nascido e já inútil. E o pulmão, as vísceras, o bucho, um interminável pesadelo. Eu devia ter desconfiado ali que não levava jeito para Medicina.

Voltamos de cabeça baixa, derrotados, mais que derrotados: cobertos de revolta e do pó que qualquer corrida de cavalo ou trator levantava em julho.

Nunca liguei a carne que a gente comia ao espetáculo de terror que a gente assistira. Ou eu era muito bobo ou muito inocente ou a carne fresca é que era muito gostosa. Foi diferente quando mataram o ganso do meu primo para servir no almoço, a gente percebeu a conexão e se recusou a comer. Protesto de criança, que não dura até o bolo de fubá da tarde.

Fato é que a carne nos alimentou por um mês. Particularmente, o bife de fígado mereceu aplausos. Tivemos por um mês força para jogar bola, atirar pedras, subir nos cavalos, nas jabuticabeiras, no morro e conversar nas pedras.

Mas aqueles olhos virados, ai, aqueles olhos vidrados, me atormentaram vida afora, nos pastos, nos açougues, nas churrascarias rodízio. Mas passou, tudo passa, nem a plantação de cebola para fazer a gente chorar sem vergonha a gente tem mais.

Foi maldição do garrote. Podem apostar. Bem feito.

 

 

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