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A morte e a vida pela janela

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Hoje eu não queria escrever. No entanto, talvez por isso mesmo seja preciso escrever. Ou gritar. Ou não gritar, pelo contrário: calar-se num canto. Ou dividir um vinho só falando com os olhos e brindando com a mão esquerda, já que a direita está muito ocupada, tocando com calma a mão querida.

Houve que, voltando de um café na padaria, vi uma aglomeração em frente a um prédio da minha quadra. Aproximei-mais para sapear o que era e uma moça me contou: um homem acabara de se jogar da janela. Morrera há poucas horas, a terra do jardim ainda estava revolvida. O homem caiu sobre um canteiro de lírios que nada puderam fazer. Tinha só 35 anos.

As pessoas se perguntavam por que ele havia feito aquilo. Não quis saber e me afastei. Posso imaginar que seu desespero era tão grande que seria meio desrespeitoso ficar especulando.

Então eu, que nem o conhecia, me peguei pensando as coisas mais bestas: “por que ele não me ligou? A gente podia ter ido tomar um sorvete, ouvir uma música ou conversar.” Quem toma uma atitude tão drástica não está pensando em sorvete ou música; aliás, não está pensando em nada, está tomado por uma nuvem negra, uma depressão profunda, uma dor só dele, gigantesca, que nenhum de nós pode supor.

Chegamos tarde, pessoal. Oferecemos o buquê, o pelo do cachorro, o cólo, o barulho da onda, um ouvido, tarde demais.

Alguma homenagem a gente pode prestar (talvez não a ele, mas à nossa tristeza): simpatizar profundamente com uma muriçoca; tomar um suco, com atenção ao sabor de cada gota; atender com paciência à ligação da moça do telemarketing (que, afinal, não quer amolar você, está só fazendo seu trabalho), seja gentil e fale de coisas como garoas e conchas.

Hoje a humanidade levou uma surra. Por isso é preciso escrever. Até para contar que, logo depois, passei por outro prédio onde havia uma primavera vermelha que escalava as paredes contornando as janelas. Parei para apreciar (e me recuperar), quando um sujeito puxou papo comigo. Era o jardineiro. Elogiei seu trabalho, ele sorriu, sua prosa era boa. Daí segui meu caminho, como a vida segue.

Se escrever for inútil, não servir para ajudar a gente a tocar essa joça, melhor é tentar outra coisa mesmo. Algo mais útil. Ser, por exemplo, um sorveteiro, paleontólogo, músico, mágico ou jardineiro. No meu caso, um deles me ajudou. Eu quase não estou triste.

Descanse, meu irmão que saltou para o nada. Encontre em algum lugar a paz que não viveu por aqui.

Nós seguimos na vida. Espiando para ver até onde vai subir aquela primavera.

 

 

 

 

 

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