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Thursday, July 9, 2020
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A palavra proibida

Havia pouca gente na calçada e mesmo esse pouco não reparou na borboleta. Mas eu sim: saiu voando de trás…

By Redação , in Cássio Zanatta , at 26/05/2020

Havia pouca gente na calçada e mesmo esse pouco não reparou na borboleta. Mas eu sim: saiu voando de trás de uma moita naquele voo meio descoordenado, que faz que vai, mas volta, decola sem muita convicção, até que atravessou a rua desviando dos carros.

     E paro por aqui. Não que o fato não mereça relato. É por um motivo mais grave: porque não se pode escrever “borboleta” impunemente. Jamais. Não há texto que resista à palavra borboleta.

     O leitor pode discordar e até citar a borboleta amarela de Rubem Braga, crônica tão boa que foi promovida a nome do livro. Eu diria que é a exceção que confirma a regra. Além do mais, a minha era meio cinza, apagada, apressada, uma borboleta de alma paulistana.

     Borboleta é a melosidade que voa. Pieguice em dobro, já que costuma pousar em flor. Palavra a ser evitada por diabéticos e confeiteiros, sob o risco de o excesso de açúcar pôr tudo a perder. Parece até uma palavra italiana, mas mesmo os italianos arrumaram jeito melhor de nomear o inseto. Sim, inseto, lamento decepcionar as almas sensíveis, mas é disso que se trata a criatura: inseto da ordem dos lepidópteros, a mesmíssima das mariposas. É. A verdade dói. Em defesa da borboleta só tenho a lamentar que esteja na linha de frente das espécies ameaçadas de extinção.

      Intelectuais devem evitá-la para serem respeitados. Blogueiros perdem metade dos seguidores só de mencionar. O sujeito que disser seu nome à pessoa amada corre o risco de ser traído num futuro próximo pelo porteiro, pelos bombeiros todos, palhaços de circo e até pelo coroinha.

     Há quem a chame de panapaná. Menos mal. Mas se borboleta se chamasse deodora, haveria mais esperança. Ou um nome mais esvoaçante, como flep-flep ou fluviola. E jamais a situe em um dia azul, à beira de um regato onde crescem gerânios – por favor, tenha um mínimo de hombridade.

     A danada se faz de sonsa, essa é a verdade. Veste alguns coloridos, fica abrindo e fechando as asas, se exibindo. Evita pousar na lama para não sujar o vestido. Fora que algumas das combinações de cores são francamente bregas.

     A minha, como tudo nesta cidade, foi como veio, desapareceu. Rápido como um modismo, passageiro como o sucesso de um restaurante. Acaso entrou em um shopping center, foi flagrada pelo radar, perseguida pelo segurança, saiu por acidente numa selfie de celular? Deixou apenas aquela dúvida se existiu mesmo ou não. Ao menos virou assunto (a ser evitado, mas hoje acordei meio contestador). Um assunto desengonçado e vacilante como o voo da dita cuja.

     Que tenha sido lido até aqui é que é espantoso. Os leitores têm andado meio fluviolas, de fato uns panapanás.

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