A Princesinha

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Dona Antonia, moradora do 115, era mulher de muita coragem. Ainda menina fugiu da casa dos pais, onde não era lá das crianças mais bem tratadas do mundo, e veio pra cidade tentar a sorte. Deu azar. Encontrou com um rapaz que, pelos modos e maneiras, devia ser parente do pai dela.

Mas foi levando e acabou ficando. Levando uns socos e chutes e ficando cansada de tudo aquilo até fugir de casa pela segunda vez, agora com a Míriam no colo.

Dona Antonia se virou sozinha, como pode, e por isso fez questão de ensinar Míriam desde cedo que a vida era dura e que ela precisava ser forte. Ela queria que a filha tivesse a oportunidade que ela não teve. Por isso, fez a menina estudar. Desde cedo. E sempre.

Miriam estudou, com o incentivo nem sempre delicado da mãe.

E estudou muito.

Fez faculdade, mestrado, doutorado… Estudou tanto que o pessoal do 312 sempre comentava que nem sabia como ela tinha tido tempo de transar para ficar grávida.

O pessoal adora falar….

E quando a Valentina nasceu, Dona Antonia ficou com a sensação de que tinha feito tudo certo e cumprido seu papel.

Embora o analista da Miriam tenha conseguido que ela aceitasse que a mãe acabou com a sua vida pois nunca permitiu que ela fosse, de fato, criança. O que explicaria sua mania de unicórnios, Hello Kittys e balinhas mastigáveis, fruto de uma infância tardia, muito comum nessa geração.

Valentina, que não tem nada a ver com isso, no auge de seus 6 anos, só sabe que a mãe permite que ela faça tudo que quiser, sempre com a esperança de não ser rígida como a avó fora em seu tempo.

A avó não concorda, mas isso só dá mais impulso para que Míriam trate a menina como uma princesinha.

E a princesinha, que não é boba, impõe suas vontades à corte de babás, professores, amiguinhos e familiares. Ela já percebeu o tamanho do poder que tem. E ele é quase tão grande quanto a tela de seu smartphone.

Afinal, Míriam vai fazer de tudo para não acontecer com a filha aquilo que aconteceu com ela.

Pode ficar tranquila, Míriam. Com certeza sua filha vai ter uma vida bem diferente da sua, disse a Eunice, do 811, que adora uma fofoca. Igualzinho à sua mãe.

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