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A que podia ter sido

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Podia ter sido a de um surfista. Cheia de ventos e sal nos cabelos, que desprezariam o pente. De quem entendesse a sequência das ondas e só saísse do mar com os músculos cansados. Ser forte e sem barriga, já imaginou? Daí a goiabada, o vinho e a rede podiam ser à vontade. Mas, se eu me estrepo desse jeito caindo da escada e quebrando 4 costelas, imagine de uma prancha.

Talvez a de um médico respeitável (não, impossível), a do herói carregado em triunfo, do canalha perseguido pela turba e salvo do linchamento pela indignação dos cachorros de rua, que, afinal de contas, não sabem reconhecer os canalhas. A do amante que foge pela janela. Mas aí eu tinha que ser rápido, e minha pressa é tão pouca.

Podia ter sido uma cheia de necessidades, falta de pão ou abraço. Uma toda errada, cheia de certezas e adiamentos. Podia ser a de quem tivesse pernas que não formigassem e o corpo sereno. Podia ser a de alguém que soubesse tomar sopa sem babar na camiseta. Alguém que soubesse consertar a torradeira ou o chuveiro.

Podia ter sido no Alentejo ou em Mucuripe. Ou em um planeta coberto de gelo, numa galáxia nem descoberta ainda, onde ninguém jamais tomaria conhecimento dos acontecimentos com que se afligem os habitantes de um planeta insignificante chamado Terra. Podia até ser em São José, mas isso fica ainda mais longe.

A vida de um alérgico e eu tinha morrido com tanta picada de formiga. A de um sem-noção e eu tinha morrido com a camisa do time no meio da torcida adversária. A de alguém que entendesse matemática. A de quem ouve perfeitamente, e eu não escutava o tempo todo essa música que não sai aqui de dentro.

Quem sabe a de um boêmio. Algum talento eu tinha, assim como gostar de beber. Mas essa coisa de roda de violão e cantoria no bar parece ter saído de moda. Depois, acho que eu sempre vi lindeza tanto nas estrelas e no silêncio como em cobrir minha filha na cama.

A de um sujeito que não ficasse triste por qualquer motivo. E mais ainda sem motivo.

Podia muito bem ser a de alguém que não se importasse com o que me contaram – pior, me mostraram a foto. Dela, tão feliz. Não faz nenhum sentido eu me sentir assim, com uma inveja de trincar os dentes, se nunca houve nada. Podia não deixar que isso me afetasse, mas aí seria um eu diferente – quem sabe um surfista, um saturniano, alguém que fosse capaz de cozinhar, de se lembrar das coisas, capaz até de encostar uma lente de contato no olho.

Podia ter sido a de alguém sem medo. Ou, pelo menos, sem tanta vergonha.

Mas essa vida que podia ter sido não foi.

Depois de tanto tempo, Bandeira podia não fazer tanto efeito. Mas o verso insiste. Que coisa.

 

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