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A queda

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Mas olha. Você não morreu, não morreu! E desta vez, parecia que não tinha jeito. Como pôde sobreviver a tamanha queda? Ainda por cima, desmaiou quando sentiu as mãos atadas e o chão próximo. Deu o suspiro final, colou as pálpebras, sequer sentiu o baque ou o cheiro do formigueiro. Algum apressado estendeu o lençol e fez o sinal da cruz. Certo: tecnicamente, você se foi por alguns segundos, pena ninguém ter cronometrado.

Chegou a ver a luz de que tanto falam, assistir ao filme dos seus melhores momentos (vamos combinar que não eram tão melhores assim, muitos se levantaram e saíram no meio da seção). Durou tudo isso, uma eternidade como a fila no cartório? O infinito entre a enfermeira esfregar o álcool e enfim dar a injeção? Ou foi mais como o tempo do coito das moscas? A cochilada que a gente dá no ônibus e acorda na fisgada da cabeça, disfarçando para ninguém notar?

Se há Deus, Ele não lhe apareceu e o Mistério continua, chato isso não se esclarecer de vez. Aquele sujeito que lhe recebeu era uma espécie de santo? Tinha asas? Ouviu som de harpa? Andou sobre as nuvens? E o pessoal por lá, não faz mesmo a barba? E insiste nas batas brancas, mesmo com a chegada do célebre costureiro?

Não sei ao certo se a mulher que lhe estendeu as mãos era mesmo tia Lúcia, você não chegou a conhecer tia Lúcia, mas ela sorriu como sempre você imaginou que sorriria. Mas o fato de não ter visto seu pai e sua mãe sugere que a experiência tenha sido uma farsa.

Apesar da brevidade, um importante segredo lhe foi confessado: o grande meteoro não é para esse século, alguns eclipses e terremotos estão agendados na frente.

Seria emocionante dizer que quem o trouxe de volta foi o beijo do amor verdadeiro. As picadas das formigas, que fizeram a festa enquanto você não estava. Ou o choro de uma criança loira descabelada, com lágrimas escorrendo dos olhos azuis pelas sardas. Mas não foi assim (pelo menos, não piegas assim). Na verdade, foi a orquestra tocando frevo no salão. Convenhamos: um frevo lascado levanta qualquer um, é ou não é?

E agora, vai dar entrevista na Globo? Fundar uma seita? Vai se declarar, o que tem a perder, já está no lucro mesmo. Como erguer a cabeça, se foi justo ela que chegou primeiro ao chão? Juntar os cacos, dizem os líderes, mas com que mãos? E esse sangue todo em volta, não vai fazer falta?

Da próxima vez, mais juízo, não se atire desse jeito. Certo: você já disse isso sete vezes. E não se arrepende de nenhuma. Enquanto houver volta, você vai se jogar, que se não for assim a vida não se sente vivendo. Muito nobre de sua parte, heroico mesmo, mas uma hora você acerta e a ida fica sem volta.

Muito bem. Mas agora que todos se foram, a TV, os repórteres, os bispos e os parentes curiosos, só estamos eu e você ­– você, que agora sabe o que há entre o céu e a terra, transitou entre os mundos, já viu a luz, o infinito, as barbas, as batas, sente-se aí e me diga, por favor, me diga:

A culpa foi mesmo da Yoko Ono?

 

 

 

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