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A quem pertence a rua?

A quem pertence a rua? O que o cais José Estelita tem em comum com o Parque Augusta em São…

By Redação , in Coluna , at 09/06/2015

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A quem pertence a rua?

O que o cais José Estelita tem em comum com o Parque Augusta em São Paulo e com a Serenata Iluminada de Porto Alegre? São todos movimentos de moradores destas cidades em defesa de um patrimônio que empresas e o governo querem convencer que não lhes pertence: a rua e a cidade.

O Movimento Ocupe Estelita nasceu da contrariedade da população de Recife com a transformação do antigo Cais num mega-empreendimento de 12 torres no local. Os moradores consideram a construção uma aberração estética, acabando com uma paisagem naturalmente privilegiada. Insistem que a ocupação do espaço é de interesse público e deveria ser debatido com a sociedade. Estão há quase três anos enfrentando a prefeitura local e o governo Pernambuco, surdos para a sociedade, mas bem atentos aos interesses do ramo imobiliário.

São Paulo, terra da especulação imobiliária, também tem situação parecida: o Parque Augusta tem 25 mil metros quadrados e possui uma rara e derradeira vegetação de mata atlântica em um dos quarteirões mais caros do Brasil. Duas construtoras são donas do local e querem construir… torres… arranhas-céus tão comuns a paisagem paulistana. Já a prefeitura e a população tentam encontrar uma saída para que uma cidade de tantas torres e concretos, tenha míseros 250 metros quadrados de verde, acessíveis a população.

Assim como em Recife, o cais do Porto de Porto Alegre também foi alvo de questionamentos e protestos da população. No lugar dos atuais armazéns, utilizados esporadicamente para atividades culturais, a proposta da prefeitura e do Governo do Estado era… erguer torres. Hotéis e restaurantes. Acesso para quem quiser e puder pagar. Inúmeras vezes o espaço foi ocupado alegre e pacificamente por jovens que propõem que o espaço seja transformado como equipamento cultural público. O impasse está parado, porque a empresa vencedora da licitação desistiu do processo.

O Cais não é o único espaço em disputa em Porto Alegre. Periodicamente, diversos coletivos organizam a Serenata Iluminada no Parque da Redenção, cartão postal da cidade. A proposta é simples: armados de lanternas, velas e violões, ir ao Parque a noite. Na contramão, uma grande empresa de comunicação local e alguns vereadores insistem no cercamento do Parque, medida que tem sido rejeitada pela população de acordo com pesquisas de opinião.

Neste final de semana, durante uma Serenata, um cidadão comunicou a polícia militar a alta incidência de assaltos no local. A resposta do policial: quem vai em um evento deste não quer a polícia perto, neste horário, gente de bem está em casa e que chamem o Batman. Ou seja, uma parte da população decide dar vida e uso para o espaço público, aumentando a frequência e, portanto, a segurança. Mas a força policial acha que não é seu problema.

Sim, porque a mentalidade do policial porto-alegrense é a mesma da administração: nada que é público deve ser resguardado, apenas o que é privado. Mata atlântica? Paisagem? Acesso ao rio? Administradores não enxergam nada disso, veem obras e “as taxas de sucesso” que costumam receber na forma de financiamento eleitoral.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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