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A resposta das ondas

em Cássio Zanatta/NY Times por

Deve haver algum sentido no trabalho das ondas. Essa sequência vagarosa há de trazer uma revelação. Uma a uma, lá vêm elas, em calma procissão, como uma passeata de águas e espumas que nada reivindica.

Fazem isso há milênios, já tentaram alertar os poderosos, minimizar as autoridades, acalmar aflitos, mas os homens, ignorantes em sua pressa e autoconfiança, não param para ouvir. Por isso às vezes estouram com mais barulho, violentas, impacientes. Se ainda ignoradas, alcançam a areia, destroem calçadas, jardins, invadem garagens e depositam areia nos bancos dos carros. Os homens, assustados, dão a isso o nome (errado mais uma vez) de ressaca e fecham os ouvidos.

As crianças, sim, sempre param para assistir ao desfile. Repare que as ondas, gratas, não lhes fazem mal se são furadas num mergulho. Até incentivam os jacarés, retardando o estouro. Caldos acontecem tão mais com os adultos, reparem. O que também explica que para as crianças é tão mais fácil boiar.

E o intervalo entre uma e outra, obedece à distância ou ao tempo? São metros que as separam ou são segundos?

Às vezes se acalmam. Serenam o mar, buscam se definir entre o azul e o verde e, quando tudo parece no seu lugar, recomeça o turbilhão. O mar, como a vida, é mais interessante quando não estaciona.

Diga se é possível para a canoa dos pescadores, tão pobre, tosca, vencer as ondas e avançar, se não contasse com a colaboração delas? Você jura que a canoa vai virar, a desproporção de forças é evidente, mas algo joga a canoa para o alto e faz a onda se agachar, abrindo caminho nas águas. Pouca gente percebe porque isso acontece de madrugada, antes do sol aparecer, mas os pescadores sabem os sinais.

Pranchas lhes fazem cócegas, um navio, massagem, bóias são brincos, gaivotas lhes dão beliscões, o sal lhes dá tempero, as espumas mandam mensagens para as nuvens, mas o que diverte mesmo as ondas é mudar as estrelas do mar de lugar.

Nas noites escuras, não as vemos, mas elas não dormem: continuam a nos assossegar com seu estrondo ritmado. O vento que sopra ora a favor, ora contra, é para elas ajuda e desafio – e cúmplice na maresia.

Num dia de 1453, 1789 ou mesmo anteontem, elas marchavam desse jeitinho que você está vendo. Em alguma hora de muita aflição, seu pai se sentou nas pedras, ficou olhando e se acalmou um tanto. Quando seus avós se sentaram na esteira, de mãos dadas vendo o horizonte, elas estavam como são agora. Fora que são capazes de narrar em detalhes como era seu corpo magrelo aos 7 anos, pulando e fazendo bolhas e risadas.

Há sentido no caminhar das ondas. Mostrar que tudo vem, tudo vai e permanece. Deixe-se estar mais nesta vida, como se uma onda lhe fizesse boiar ou mesmo o carregasse. Não se aflija tanto, calma. A onda que agora caminha no mar vai passar de novo, ela mesma, tal que nem, antes do seu último suspiro.

 

 

 

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