-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

A tal foto

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Na tal foto ela olha para o chão, em muitas fotos ela olha para o chão. De vergonha, timidez, ou será que ela sabe? O que carregou de sua terra, o que aprendeu na Pauliceia? Talvez não quisesse que sua luz fosse registrada, talvez seja para nos poupar, já que seu olhar carrega perigos. Não deixa de ser um alívio que ela não nos encare de frente.

Sou mais nuvem que chão. Pouco provável então que ela me encontre olhando para baixo, o que é triste. Se bem que uma chance tenho: às vezes sou caramujo, meu arrastar é lento e fechado. No mais, em geral estou no ar. Minhas chances são pequenas.

Aquilo é um sorriso? Parece alegria, mas não posso jurar. Que é encanto e mistério, está claro. De que sorri? No fundo, sabe que alguém vai se deter nessa foto e ficar mais imóvel que a imagem? Só não morda o lábio, que quando ela morde o lábio quem sangra são as nuvens.

E o que é aquilo azul ao fundo? Um mar tão céu, incrível que não seja o mais bonito da foto; um barco passando devagar, devagar, feito… o caramujo, olha eu, e soprado pelo vento, é minha chance! Mas não estou lá, nunca estou, sempre chego atrasado, uns 15 anos atrasado, o lesmão, ou muito antes, como a folha que vento leva, seca e, quando a gente pisa, soa biscoito.

Sopra o vento de novo. Cada vez me levando para longe, mais longe. Sem poder me cravar a piso algum. Muito longe dos olhos que olham para baixo. Bom seria um noroeste que trouxesse chuva forte, me derrubasse e trouxesse às cambalhotas numa enxurrada, talvez até desaguasse nesse mesmo mar. Mas seria tarde, eu chegaria no depois, como sempre. O instante já passou, se é que houve.

E essa mão no queixo? É pensamento ou pose?

Então fica assim. Você de olho no chão, eu de vida para o ar. Até que uma poeira, irmã do vento, passe por mim, leve e súbita; então pare lá na frente, me espere, paciente, espere o tempo preciso para enfim me encontrar, se enfiar e penetrar nos meus olhos, um cisco à prova de colírio.

A tal foto onde ela olha para o chão. Nunca mais a vi, perdeu-se nas gavetas que se divertem escondendo as coisas. Mas está impressa para sempre, onde menos devia estar.

loading...
Tags:

Comentários no Facebook

Últimos de Cássio Zanatta

A resposta das ondas

Deve haver algum sentido no trabalho das ondas. Essa sequência vagarosa há

Pedaços colados

Dizem que para os lados de Batatais há um especialista em juntar
Voltar p/ Capa