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A Terra é cinza

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– A Terra é verde!

Revelou ao mundo Yuri Gagarin, há quase 50 anos. Foi um espanto no centro espacial russo, que a gente não lembra o nome porque o que ficou para a história foi o da NASA, em virtude do colapso da União Soviética. O tempo todo, notícias chegavam por ETs, incas venusianos e astronautas de outros mundos que garantiam que nosso planeta era azul.

Mas o homem disse do espaço, ao vivo e em cores, pausadamente e coberto de certezas: verde. Quando chegaram as primeiras imagens vindas do espaço, foi a confusão universal: o planeta aparecia azulzinho da silva, como o céu, alguns mares de areias brancas e a bandeira da Portela. Um cientista fora convocado para interrogar a mãe do astronauta:

– Madame Gagarin, seu filho faz confusões com cores?

– Camarada, Yuri é daltônico.

O que não explica inteiramente o assunto, dado que um daltônico não confunde o verde com o azul. O erro de avaliação do astronauta foi então atribuído a uma emoção maior que o homem podia suportar: ver do espaço a Terra surgir com seus dramas, confusões, guerras e paixões, tão serena, tão verdemente azul, é de enlouquecer qualquer cristão, mesmo um comunista. Portanto, a famosa fala que ficou para a história foi modificada e corrigida pelo alto escalão russo. “A Terra é azul” tornou o cosmonauta soviético imortal, famoso em todo o mundo, nosso e de outros.

Quem me contou essa história, esse segredo guardado até hoje, foi o caseiro do sítio de um amigo. Ouvi com atenção e muita dúvida, com três pés atrás. Mas o sujeito era tão sábio na maneira de sentar, espreitar o horizonte, na pausa estudada entre as frases. Além disso, sua mulher fizera um café tão honesto que tudo me pareceu muito verdade.

Voltei para casa a pé e debaixo de chuva. Desisti de esperar a estiada, já que a água não parava de cair há quatro dias em Rio Pardo, paciência. O tempo amoleceu, como se diz por aqui. Fiquei pensando no caminho que, se fosse num dia como hoje que Gagarin avistasse do espaço a Terra, haveria de dizer:

– A Terra é verde! Verde como a grama e casca das bananas quando não estão maduras. Com uma exceção, visível perfeitamente do espaço: um pontinho meio perdido, lá embaixo da América do Sul, completamente coberto de uma nuvem cinza, feia, persistente, irredutível, que parece não querer largar o osso de jeito nenhum.

Cheguei em casa ensopado e com uma febre que foi piorando, piorando, até me inspirar este texto.

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