Amigo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não está me reconhecendo?

É esse tanto de cabelo branco que dificulta um pouco. Eu já bebi com você, quer dizer, quando cheguei no bar você já estava alto, até que, lamentáveis, alguém deu a ideia de fazer uma serenata. Eu que pulei o muro, caí no barranco do outro lado e quebrei seu violão. Sim, fui eu. Mas a menina não valia a canção, vai por mim.

Lembra: eu que na boate chique enfiei os pés no espelho d’água e tive de ir embora, molhando o tapete do corredor e divertindo o porteiro com aquele som de sapato naufragado.

E quando entramos de bicão na festa chique e, para ser simpático, perguntei à mãe da moça que horas eram e ela respondeu “hora de ir embora”? Gente que não sabe receber, tá doido.

Foi você quem me salvou das pedras e da correnteza do rio em que eu resolvi nadar sem conhecer, não foi? Foi nesse dia que pescamos uns peixes, limpamos, fizemos na brasa e contando parece incrível, mas ficaram incomíveis.

Fizemos nossa primeira barba juntos, sangramos as espinhas feridas, mas como ficamos orgulhosos. Quando seu pai morreu, você me telefonou para irmos juntos para São José. Já andamos na camionete cheia de cebola e ficamos com os olhos ardendo, chorando e morrendo de rir. Construímos uma casa na jabuticabeira da casa da vó e jogamos lá do alto jabuticabas verdes nas meninas. Cantamos com umas moças em Trancoso, quando ainda não havia Trancoso – mesmo nós, ainda não éramos bem gente. Uma delas ficou com sua gaita.

Eu estava com você em Verona, quando quebrei os óculos e, míope feito uma porta, não pude me maravilhar com a cidade? Quando fui barrado, tentando entrar na Inglaterra, você fez falta, você com sua conversinha ia provar que eu era o primo tímido do George Harrison.

Escapamos de boas. Jogamos bola contra o pessoal do morro e a coisa não acabou bem. Puxamos briga com uns caminhoneiros. Apanhamos na saída do estádio. Cheiramos lança no Carnaval atrás da mesa do delegado e fomos presos em flagrante (OK, fui só eu). Mas foi só para assustar, o delegado me liberou e apenas proibiu que eu voltasse ao salão.

Lembra do cachorro que nos atacou, você foi superparceiro, saiu correndo e o bichão mordendo meu braço. O desgraçado era um tanto sádico, e ficava afundando, afrouxando e afundando de novo os dentes na minha carne. Seu pai me levou para tomar antirrábica. Doeu mais do que a mordida.

Moleques bobos, uma vez você me apresentou como um primo do Rio e eu tive que fingir sotaque carioca o fim de semana inteiro. Em oito no elevador, acionamos um extintor de incêndio e o pó quase nos asfixiou. No meio do jogo, o raio caiu no campo e matou nosso primo. Em compensação, deitamos no asfalto da estrada na noite de inverno, que guardava o calor do dia, e ficamos vendo as estrelas. Tomamos vinho licoroso com ovo empanado, cachaça com torresmo, rum Georgetown misturado com refrigerante Picolino, inacreditável que estejamos vivos.

Já tocamos no Trio Elétrico e não levamos choque por milagre, guitarras precárias em cima de um caminhão velho, tendo que abaixar a cabeça quando ele passava debaixo da fiação da rua. Íamos da fazenda à cidade ferrar as patas dos cavalos, parando nas casas das fazendas para comer um bolinho. Sou capaz de sentir o cheiro de pó da estrada de terra agora mesmo, em frente a esse computador.

Eu estava meio apaixonado e tomamos 16 – dezesseis! – vodcas com suco de laranja. E só comemos um pratinho de amendoim japonês. Cantamos Vinicius em cima do coreto da praça. Deve ter sido nessa madrugada que resolvi tomar banho e fui dormir sem me secar, deixando o chuveiro elétrico ligado. Meu pai acordou com o maior fog na casa.

Claro que ficamos um bom tempo sem nos falar. Você ficou com aquela menina de que eu gostava e você sabia, seu tratante.

Sou eu mesmo, amigo. O tempo passou um pouco, algumas coisas que aconteceram estão distantes, a gente pouco se vê, mas quando isso acontece, parece que nos falamos ontem mesmo, os assuntos vêm facinho. Jamais vou deixar de ser eu, o amigo.

Oi? É verdade, estou te devendo um violão.

 

 

 

loading...

Comentários no Facebook