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Ao amigo Marcelo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Comunico que a última contabilidade do número de taças e copos e doses que tomamos juntos desde 1977 está em 1.299. Que não há entre eles registro de batida de mangaba, licor de framboesa ou vermutes. Precisamos ver isso aí.

Ao amigo que já confessei coisas que não dividiria nem com o Papa, digo que o coração está tranquilo, que na feira tem pouca fila no pastel e que essas idas constantes para o mato têm me feito bem.

O livro que você me emprestou está firme ali na estante. É um belo romance e não tenho a menor intenção em devolvê-lo. Honestidade é tudo numa amizade e vamos combinar que estamos quites, depois do Urubu do Jobim que você me garfou.

O violão está meio enferrujado, as pernas andam lentas, mas os devaneios estão nos trinques. Acho que nós dois realizamos muita coisa que sonhávamos e isso me faz orgulhoso. Mas até hoje não me rendo à sua paixão por picles de aperitivo. Para mim, perde da azeitona de mil a zero.

Já assistimos juntos a Bob Dylan, Francis, Sarah Vaughan, Elis, Hermeto, Toquinho e Vinícius e até já nos apresentamos num palco, eu no violão, você, cantando, chegamos a agradar na primeira música e não vamos tocar no assunto da reação da plateia à segunda.

Vi o amigo tocar gaita para umas meninas em Porto Seguro (coisa impressionante, já que você nunca soube tocar), arrumar briga com uns ratos de praia de três metros no Rio, batemos o carro na Marginal, tomamos vinho à beira do Sena, encontramos nossas mulheres, tivemos filhos, olhamos as estrelas deitados no asfalto da estrada e já roubamos porções que sobravam na mesa ao lado no bar que tinha uma foto do Papa em cima do caixa onde trabalhava um japonês.

Você tinha uma mancha branca no cabelo castanho, mas ele está embranquecendo e a mancha, ficando mais escura. Nossas barrigas cresceram proporcionalmente à nossa sabedoria (é preciso acreditar nisso, senão ferrou). E peço perdão com certo atraso por ter rido do calção ridículo, que já era velho nos anos 70, com que você apareceu um dia na praia.

Não nos vemos com a mesma frequência de antes. Essa é uma cidade que insiste em aproximar os inimigos e afastar os amigos. Mas talvez seja melhor assim, dá tempo para ler mais livros e assistir a mais filmes pra gente comentar depois. E convenhamos: nossos fígados andam meio combalidos, hoje em dia uma pausa faz bem.

Era isso. Um papo meio furado, como tivemos tantos. Sem muita serventia, além de dar risada feito bobo ou lembrar de alguma coisa boa. Sempre fomos bons nisso. Com o tempo, melhoramos. Mas sempre se pode aprimorar. Batida de mangaba hoje?

 

 

 

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