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Tuesday, April 7, 2020
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Apareceu a tartaruga

By Redação , in Cássio Zanatta News & Trends , at 18/02/2020 Tags:

Sentado na murada da praia, de olho nos jogos do mar, vi a tartaruga. Aliás, quem viu primeiro foi Maria. Aliás, eram quatro, uma bem maior que as outras. Não era grande como as que aparecem na Praia do Forte ou Fernando de Noronha, mas era a maior que vi por essas bandas. A água estava limpa e clara. 
 De todas as criaturas belas deste mundo, a tartaruga briga pelo topo. Ainda que “brigar” seja um verbo mal escolhido: só pureza e tranquilidade transmite uma tartaruga. Ignora sua majestade, o fascínio que provoca nos homens e as palmas que as crianças batem toda vez que ela reaparece na superfície para respirar.
 Golfinhos e baleias também são doidos para exagerar na beleza. Mas não se contentam com isso: precisam saltar, rodopiar, cuspir água para o alto e fazer barulho para chamar a atenção. As tartarugas não parecem se importar – passar dos 100 anos deve trazer alguma sabedoria. Ao contrário: tão logo são avistadas, desaparecem. Quando sua cabeça torna à superfície, ela já está a 50 metros de distância. 
 Talvez o mais impressionante seja o fato delas retornarem ao exato lugar onde nasceram, 30, 50, 80 décadas depois. Nunca esquecem o caminho. Devem ter um radar, sei lá, que de tempos em tempos avisa: é tempo de voltar. Não para permanecer, basta dar um alozinho, uma piscada de olho, contar algum breve ocorrido e voltar para alto mar. Ou nem voltar, ficar na sua praia natal e descansar para sempre.
 Conheci um sujeito que também tinha nascido em São José, saiu de lá com menos de um ano e jamais voltou. Nem de curiosidade. Caramba. Tanta terra deve ter andado, nem para passar para saber como é. Um daqueles que falam rápido, com pressa nas frases. Penso nele como o anti-tartaruga.
 Dizem que sopa de tartaruga é uma iguaria rara e apreciada. Duvido que cause o mesmo encantamento que encontrar uma delas solta no meio do mar. Tive esse privilégio. Lembro que ela me olhou com o canto dos olhos, como se pensasse: “Lá está mais um bobo fora do seu habitat. Não é à toa que vivem pouco.” Voltou a olhar pra frente e seguir sua longa jornada.
 Durou pouco minha visão. Ao menos minha filha fotografou. Mais tarde, caminhando pela beira d’água, fingi prestar atenção ao vento e às pequenas ondas que chegavam. Mas estava de butuca mesmo era na possível (e ao mesmo tempo, impossível) aparição das tartarugas.
 Isso foi ontem. Hoje, dormindo, sonhei com uma que sabia falar – mas nada disse de surpreendente, uma pena mesmo. Mais tarde, já de manhã, enfrentei uma reunião, bem longe do mar, onde oito pessoas discutiam de tudo, menos o mistério e a beleza da tartaruga. 
 Os homens são muito estranhos. Eu, inclusive.

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