Aquele que ninguém lê…

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Quase em festa comemoro quando sai alguma nota, rodapé que seja, dos meus livros e poemas. Já cheguei a bater – porta em vez- de cada jornal brasileiro oferecendo colaborações e colunas. Monto um álbum de publicações como prova de que existo. Preciso olhar ali e saber que é de mim que falam. Paranoia de artista sem público. Formo o picadeiro, mas entro em cena sozinho; palhaço triste e arredio que não vende ingresso nem para a família.

Tenho o meu nome estampado em matérias que ninguém lê, a editoria cultural geralmente é menos disputada que obituário. Mais barata, inclusive. Anunciar um defunto é mais caro e respeitado que um livro. Alimento pra terra é mais valorizado que aquilo que enobrece o espírito. País do inverso e do perverso desejo de sermos alguma coisa além de letras soltas em livros, revistas e folhas mortais de jornais que servirão para embrulhar um peixe ou o azedume de uma fruta em fim de feira.


Construí, posso dizer, um certo sucesso. Os porteiros me reconhecem pelo volume de livros de outros seres delirantes que, como eu, buscam espalhar-se, galgando seu espaço e infringindo o bom senso e o ridículo ao despachar-se em forma de volumes, brochuras e recomendações mundo afora. Recebo de dez a quinze por semana. Leio os que consigo em meio àquilo que escrevo enquanto deveria estar trabalhando. Se escrevo, lógico, quero ser lido. Entupo o correio com livros que outros como eu receberão e, se der tempo, lerão em vez de sangrarem no trabalho de todo dia. Marco no mapa as cidades para onde mandei minhas poesias e novelas. Ribeirão Preto, Belo Horizonte, a Sorocaba dos meus pais e os rincões da Argentina. É como se parte de mim estivesse nesses pontos distantes da minha casa e loucura. Quando descubro o endereço de alguém famoso, mando também. E com aviso de recebimento. Posso mostrar pra todos que estive perto desse ou daquele escritor, do artista de televisão ou do cantor. Pode ser que eles leiam algo ali e resolvam gravar; um filme! Série de televisão! Meu nome passando na Globo entre letras pequenas – daquelas que também ninguém se preocupa em notar ou traduzir em nomes.

Escrever é terapia. E dói em todo o processo, pois escrever é pior que falar. Ditas, as palavras percorrem o espaço, fragmentam-se e se dispersam. Passou um pouco e já são esquecimento. Quando se fazem texto, sangram mais que nossas feridas. É também a forma como sangramos em outras pessoas.

Pesquiso na lista dos mais vendidos os nomes daqueles que poderiam ser eu – títulos e júbilos em prêmios que não ganhei e sequer participo. Mas poderia, fosse lido e famoso.

Ser lido…Os porteiros identificam meu nome em envelopes de vários tamanhos e cores. Muitos com carimbo oficial – são cobranças e finjo anunciarem prêmios e viagens em seus brasões do governo. Se não for para ser lido não escrevo! Mas pela escrita em que sangro é como chego, nesse instante, aos seus olhos.

(Marcelo Adifa)

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