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As duas bermudas de um cego

As duas bermudas de um cego Na adolescência, em seu aniversário de 14 anos, Raul recebeu duas Bermudas de presente…

By Redação , in Coluna , at 27/04/2015

Marco

As duas bermudas de um cego

Na adolescência, em seu aniversário de 14 anos, Raul recebeu duas Bermudas de presente da mãe. Mesma marca e tamanho. Idênticas se não fossem pela cor: Uma amarela e outra azul. Bonitas, simples e lisas. Confortáveis e de algodão.

Raul gostava de ambas. Usava-as para passear, jogar bola, ficar em casa ou até mesmo para dormir. Eram suas peças de roupa preferidas. Uma ou outra, usava-as praticamente de forma ininterrupta: enquanto uma estava lavando, vestia a outra.

No aniversário de 15 anos, com ambas as bermudas já gastas, Raul começou a ter preferência entre uma ou outra. Começou a ver distinções nas peças. Entendeu a bermuda azul como um pouco mais careta, mais apertada, mais formal quem sabe. Percebeu a amarela como uma peça mais livre, mais descolada, mais desinibida. Resultado: passou a usar a peça amarela em noventa por cento das ocasiões que demandavam bermudas. Começou a moldar sua personalidade desta maneira. Forjou-se à figura de um jovem que enxergava a liberdade como a maior das virtudes humanas. Parecia o jovem Knulp, criação do escritor alemão Herman Hesse, transmutando seu coração em um órgão sem paradeiro algum. Ou quem sabe com inúmeros paradeiros.

Nos anos seguintes o que se via era um rapaz sem amarras alguma. Vivia um dia atrás do outro a espera do Sol ou da Lua se alternam no céu. Cutia ambos, mas sempre ansiava pelo outro. Não se apegava. Apenas pegava.

Quando completou 30 anos de idade, percebeu que não mais encontrava a bermuda amarela. Procurou em todos os cantos da casa e nada. Questionou então a faxineira da casa. “Mas Raul, aquela bermuda velha com um rasgo enorme na bunda? Mais parecia um trapo. Eu a promovi como pano de chão, oras!”, respondeu a articulada senhora. Raul sentiu-se revoltado. Depois angustiado. Até que se entristeceu. Foi quando percebeu a mudança. Sufocado pela realidade que o mundo lhe abria, caiu em prantos. Chorou como um menino. Secada as lágrimas, vasculhou as gavetas e conseguiu encontrar a outra bermuda. Aquela azul. Vestiu-a e percebeu que ainda a via como uma peça careta, apertada e formal.

Passou a utiliza-la mesmo assim. Todas as noites a vestia. Sentia-se encalorado nas noites mais quentes. Percebia também um desconforto genital certas manhãs ao acordar. Entretanto, com o passar do tempo, foi se habituando a formalidade. Foi se habituando as raízes. Mais um pouco e nem se lembrava da outra bermuda.

Era tarde demais. Aos 40 anos, ainda utilizava a peça azul com desconforto. Percebeu então que ao optar pela amarela aos 15 anos, incríveis emoções havia-lhe sido impostas por um lado. Por outro lado entretanto, um destino imperdoável marcaria sua sina. O tempo não voltaria mais. O que vestira aos 15 anos havia moldado sua vida. Tão jovem assim? Injusto, não?

Fato é que aquela escolha do passado o deixara fadado ao desconforto do incompleto para sempre. Seria ele o próprio culpado então? “Se ao menos a bermuda azul também tivesse sido desfeita pelo tempo.” Lamentava-se Raul. “Daí quem sabe minha vida teria sido uma outra história…”

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Marco Antônio Guile escritor mineiro que retrata em crônicas fictícias, as incontroláveis sensações que acompanham descompassos cardíacos nos homens. Qualquer semelhança com histórias reais é mera coincidência… © 2014.

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