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Wednesday, June 3, 2020
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As irmãs de Santos

By Redação , in Cássio Zanatta Coluna News & Trends , at 31/03/2020 Tags:

 Essa antiga história aconteceu em Santos, onde muitas delas gostam de acontecer.
 Havia duas irmãs muito próximas e amigas. Não ficavam um dia sem se falar. Moravam em casas separadas, uma de um lado do canal e a outra, exatamente em frente, do outro lado. 
 Ocorre que, naquele tempo, o telefone não era assim tão difundido. Aqueles papos intermináveis ao aparelho, bem lenga-lengas, não haviam sido inventados. Pensando bem, pouco durou seu reinado: foi substituído pelo celular, por onde as pessoas hoje em dia até preferem conversar por mensagens de texto do que por voz. Enfim.
 O que faziam as duas irmãs, respeitáveis senhoras, para pôr a prosa em dia? Uma saía de sua casa, atravessava a rua a passos lentos, ia até um lado do canal e esperava pela outra, que também saía de casa, atravessava a rua, se apoiava na murada e juntas, cada uma de seu lado, contavam os acontecidos. Como o faziam em voz alta, separadas pelo canal, a vizinhança também aproveitava para se inteirar dos assuntos.
 Os dias chuvosos não eram empecilho para elas, que se muniam de capas e guarda-chuvas, e cumpriam seu ritual. Às vezes, quando imaginavam que a conversa ia render, levavam um banquinho para se sentar.
 Então, num belo dia, um sujeito que aparentemente pouco tinha a fazer, pois costumava observar o vai-e-vem das irmãs, teve uma ideia: era amigo do prefeito e sugeriu que este construísse naquele local uma ponte, para que as duas mulheres pudessem se encontrar e prosear lado ao lado – e, no caso de uma boa fofoca, bem baixinho. E se fosse ver, aquele trecho de fato andava precisado de uma travessia.
 E assim foi feito. A ponte foi construída no devido tempo, firme e forte. Vejam que a história é mesmo antiga, da época em que os prefeitos solucionavam grandes problemas.
 A ponte ainda está lá. Para quem vem da praia, é a primeira ponte do canal 4, uma estreita. Era ainda mais estreita quando foi feita, com o tempo deram uma alargada. Constato que, hoje em dia, muitas pessoas gostam de conversar enquanto a atravessam. Algumas crianças inclusive se divertem jogando folhas caídas das árvores na água do canal.
 Já as duas irmãs acharam que a ponte foi uma intromissão do progresso, trouxe facilidade demais, intimidade demais, algo havia se quebrado, desfeito o encanto, sei lá.
 Fato é que desde então deixaram de se falar. 

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