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Assim, de repente

em Cássio Zanatta/News & Trends por

De uma hora pra outra, me vi emocionado numa queima de fogos. Disfarcei um choro sentido e sem sentido, particularmente quando explodia algo azul. Foi pouco depois de perceber que agora ficaria meio ridículo fazer tatuagem.

Comecei então a ter de fazer conta para lembrar a idade. A me atrapalhar para pagar uma conta pelo celular, como meus pais se atrapalhavam com o controle remoto da televisão. Cada vez mais inconformado com o sumiço dos coletes.

Aos poucos fui deixando de ser escolhido no par ou ímpar para a formação do time. Minhas fotos de moleque ganharam um leve tom sépia que não havia. De fazer barba todo dia passei a fazer de quatro em quatro. Dei de ser ultrapassado cada vez mais fácil nas ruas – por mais esforço que fizesse, nunca mais alcançava quem havia me deixado pra trás.

Sem mais nem menos, uma moça no metrô se levantou e me cedeu seu lugar. Mas no mês passado mesmo não ofereci o meu? Também num susto, os telefones saíram para passear, as cartas sumiram (mas as contas a pagar continuaram palpáveis) e reparei que ninguém mais chama carro de automóvel. Os dedos ficaram mais teimosos para certos acordes no violão.

Quando fui ver, “lembra do” se referia a coisas acontecidas há 30 anos. Tenho sofrido menos com futebol, prazos e me impressionando com o embranquecimento dos cabelos dos amigos. Anda difícil encontrar uma outra testemunha da existência dos Monkees.

De repente, a balança resolveu que 80 seria o novo patamar. O mínimo. Menos que isso, podia esquecer. E mais que isso, cada vez mais fácil. Ficou cafona usar tênis com meia branca. Ficou cafona usar a palavra cafona. Num estalo, todas as visitas sumiram e deixaram de conviver. E como assim, ninguém mais aqui estourou bola de Ping Pong ou foi a um show do Tom?

Assim, do nada, percebi que a relação cinema/trabalho havia baldeado demais em favor da obrigação. No terceiro caldo no mar, desisti de lutar com as ondas. Minha filha ficou mais alta do que eu, meu filho ficou mais alto do que eu, a torcida do Corinthians junto com a do Flamengo e do Atlético ficou mais alta do que eu.

De repente, não mais que de repente, a ausência de Vinicius ficou insuportável. Mas olha, algumas coisas voltaram: o fascínio em ver fazer surgir os fios de algodão doce (muito mais interessante que o algodão doce em si), pisar na poça de propósito, torcer para um determinado palito na enxurrada da chuva e, principalmente, fazer absoluta questão de, no carro, no ônibus ou no avião, se sentar na janelinha.

Pois eis que é chegada a hora. Estou andando a 20 minutos pelo Centro de São José e não encontrei nenhum conhecido. Ninguém. Só me resta tomar um sorvete. E ai se não tiver mais o de creme holandês: eu quebro tudo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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