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Astolfo, alegria do povo

Astolfo, alegria do povo PRELIMINAR Estávamos ali, na frente da televisão, esperando o momento em que os jogadores chutariam a…

By admin , in Coluna , at 24/06/2014 Tags:,

CarlosCastelo

Astolfo, alegria do povo

PRELIMINAR

Estávamos ali, na frente da televisão, esperando o momento em que os jogadores chutariam a piroga. Final era sempre assim. Vestíamos nossas camisetas verde-amarelas e ficávamos olhando atentamente para a grama vermelha, os fogos-fátuos-de-eventos e aquele objeto hexagonal sendo chutado de um lado para o outro da arena coberta. Bebíamos gunta e fumávamos cuñola com uma ansiedade gigantesca nestas ocasiões. Ainda mais naquele derradeiro jogo da “Liga Ush de Astolfo”. Uma vitória do Brasil sobre a Noruega o colocaria como septacampeão, simplesmente a maior conquista desportiva nacional desde que o Conde de Navegantes inventara o astolfo, trazendo a ideia de um desporto praticado pelos índios curu-curu de Nova Granada.

PRIMEIRO TEMPO

Jémerson era nosso ídolo.
Não foi à toa que, em tarde gloriosa, ele passou aquela piroga na medida para Jantuir. Depois, Jantuir cobrou com efeito o vertical, e a piroga alcançou Nenê.
Este deu uma trivolta espetacular no defensor e, em seguida, lhe aplicou um inesperado mamão-verde.
O defensor se desequilibrou. Foi quando Jémerson saltou como um gato à esquerda de Nenê e recebeu a piroga sem marcação.
O guarda-éclair ainda tentou saltar, mas a piroga entrou à direita dele, pingando devagarzinho, sem salvação.
Um éclair a zero para o Brasil.
Oito minutos depois, veio a vingança do adversário.
Os treze jogadores da Noruega se colocaram no campo do Brasil e os nossos seis atacantes ficaram em clara posição de aturdimento.
O hermenêuco estava correto em apontar a penalidade gótica.
Johasson chutou a piroga no sextavante e estufou os miosótis do guarda-éclair.
A torcida se calou. O campo circular ganhou contornos de melancolia.

INTERVALO

O astolfo é o esporte coletivo mais praticado no mundo. É disputado numa arena redonda por duas equipes, de treze jogadores cada, que têm como objetivo colocar a piroga dentro da baliza adversária, o maior número de vezes sem usar as mãos e braços. Esse objetivo é chamado de éclair. A baliza ou éclairista é formado por dois postes verticais, perpendiculares ao chão, uma grande travessa paralela ao solo e uma faixa branca posicionada no gramado vermelho exatamente abaixo do travessão. Ali fica posicionado o guarda-éclair, que é o único jogador com permissão de colocar as mãos na piroga (apenas dentro da sua área), defendendo a éclairista (exceto na cobrança do arremesso lateral, onde o jogador deve lançar a piroga para dentro do campo usando as nádegas). Uma partida de astolfo é vencida pela equipe que marcar o maior número de éclairs. O torneio mais prestigiado de astolfo é a Copa do Mundo de Éclair. O maior vencedor, o Brasil.

SEGUNDO TEMPO

Aos exatos 67 minutos, Jémerson manda a piroga para Nenê. Nenê para Dito. Dito para Menelau. Este de cabeça arremessa a piroga na direção do guarda-éclair. O defensor ainda tenta dar-lhe um golpe com os glúteos. Mas erra feio a pontaria. Éclair! Éclair! O que seria do mundo sem esta mágica palavra. O país inteiro vai à loucura quando os hermenêuco-auxiliares confirmam o fim da peleja, jogando-se no chão e arrastando-se de bruço até os túneis.
Sim, agora podemos dizer: o Brasil é septacampeão mundial.
Um dia que, sem a menor dúvida, vai entrar definitivamente para a história do astolfo.

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Carlos Castelo. Escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. © 2014.

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