fbpx
Tuesday, September 22, 2020
-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-


Ato Falho

Ato Falho Descobri a justificativa para essa história, alguns meses depois, na aula de teoria da comunicação. O que tinha…

By admin , in Coluna , at 29/01/2015

claudia

Ato Falho

Descobri a justificativa para essa história, alguns meses depois, na aula de teoria da comunicação. O que tinha acontecido comigo foi um ato falho. Todo mundo já cometeu um. Em geral eles são simples, como chamar uma pessoa pelo nome de outra, por exemplo… mas o meu não.

Ato falho: Interferência, num ato intencional, de um outro acidental e aparentemente sem propósito, produzido pelos mecanismos de um desejo inconsciente, cuja intenção primária é levar a cabo esta realização acidental.”

Atividade da próxima aula: fazer uma redação em espanhol. O fim de semana estava acabando e já eram onze e meia do domingo. Deitada no sofá, resolvi que minhas atividades mentais renderiam mais no dia seguinte. Assim, pedi pro meu pai me acordar uma hora mais cedo: às 5:00 da manhã. Para variar, ele reclamou porque eu sempre peço pra ele me acordar, mas nunca levanto.

Levantei na segunda, tomei banho, me troquei, fiz a redação. Tomei um leite pra acordar, arrumei minhas coisas e saí.

Estava um pouco mais frio que o normal e um tanto escuro também, mas considerando o fato de ser horário de verão… Fui descendo a rua, de repente bateu um medo, sentia um silêncio, olhava para os lados como se alguém estivesse me vigiando, mas mantinha o pensamento “Está pertinho”. Sorri do medo bobo e resolvi seguir meu pensamento. Olhei para estação: tudo fechado. “Não acredito! Será que esses caras estão fazendo greve outra vez? Ninguém trabalha mais nesse país?” O medo se transformou em revolta. Tentei ver as horas no celular, mas a porcaria estava desconfigurada também. Ora essa, ia acabar chegando atrasada! O único jeito era voltar para casa e pedir pro meu pai me levar até o metrô. Resmungando, voltei. Ao ouvir o barulho da porta, minha mãe (dormindo, claro) já chamou:

– Claudia?
– Eu…
– Onde você vai?
– Trabalhar oras…
– Ah.. ta. (e continuou dormindo)

Fazendo um sinal negativo com a cabeça, pois estava atrasada e ia ter que arrumar um caminho alternativo por causa da greve, fui até a cozinha, acendi a luz e olhei as horas. Uma e cinquenta da manhã. Abaixei a cabeça e olhei de novo. Exceto pelo ponteiro dos segundos, o relógio continuava marcando uma e cinquenta da manhã.

– Paaaaaaaaai… Pai? Ô pai! Que horas são?
– Dez pras… MALUCA! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO UMA HORA DESSAS NA PORTA?

Dei um tapa na própria testa e me joguei no sofá:

Eram dez pras duas da manhã e eu, doida, já estava pronta e de redação feita, querendo que os coitados do trem estivessem trabalhando. Além de praguejar os funcionários que estavam descansando em seus lares no horário devido, ainda pensei em atirar o meu celular o mais longe possível: Imagine, marcar uma e cinquenta na hora que estou indo trabalhar! A solução foi deitar mais um pouco na minha cama e levantar mais tarde que o habitual, afinal, já estava pronta mesmo.

O dia inteiro ouvi piadinhas sobre o ocorrido. Quando perguntada sobre a dúvida que não queria calar “Mas como você conseguiu fazer isso, se há um relógio no banheiro? A resposta era simples “Eu só reparei nos minutos, sempre confio no horário que meu pai me chama.”

À noite, cheguei em casa e eis que encontro minha mãe (com cara de sapeca) sentada no sofá. Ela segurava sorridente um relóginho feito, por ela mesma, de papel. Uma estrutura incrivelmente caprichada, com ponteiros móveis e o caramba.

– Filha… senta aqui com a mamãe. Preciso te explicar uma coisinha…
Mesmo desconfiada daquela cena, obedeci. Me sentei ao lado dela.

– Filha, olha… esse é um relógio. O ponteirinho marca as horas e o ponteirão marca os minutos. Quando o ponteirinho estiver no seis (e moveu o primeiro ponteiro) e o ponteirão estiver no doze (moveu o segundo ponteiro), é que você tem que sair para ir ao curso/trabalho (que ficavam no mesmo prédio). Antes disso você pode “nanar” sossegada! – E ela e meu pai caíram na gargalhada.

Fiquei ali, em estado de choque. Os outros tudo bem, mas agora eu estava sendo apunhalada pelas costas, pela minha PRÓPRIA MÃE!

Isso tudo é culpa da pressão psicológica que fazem comigo. O curso inconveniente que exige tarefa de casa e meu pai por me pressionar a levantar. Eu poderia jurar que o ouvi chamando. Mas tudo não passou de um ato falho. Fiquei tão preocupada que meu inconsciente me pregou uma peça.

Depois de toda humilhação com esse ser pressionado (eu)… meus pais ficaram preocupados. Durante alguns dias eles ficaram temerosos que eu tivesse outro surto e saísse por aí brigando com todo mundo por estarem (onde já se viu!) dormindo de madrugada, enquanto eu queria ir trabalhar.

Nunca mais cometi outro delito como esse. Aprendi a conferir as horas e saio sempre no horário certo. Tah! Às vezes meio atrasada…

__________________________________________________________________________________________________________
Claudia Giron Munck é Publicitária, Relações Públicas, especializada em Marketing e Mídias Digitais. Atua na área de Comunicação do Sesc SP e é Coordenadora Editorial da Revista Gente Nova.

Comments


Deixe uma resposta


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *