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Cássio Zanatta

Cássio Zanatta has 111 articles published.

A velha que varre a calçada

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A velha que varre a calçada já não varre mais a calçada. Costumava ficar horas na varredura, diariamente. Há semanas não a vejo. Sofreu um troço? Foi sequestrada por gente que tem alergia ao pó que a vassoura assanha? Mudou para uma clínica de repouso em Jaboticabal? Ou, depois de anos, parou para se perguntar, afinal, para que serve varrer a calçada todo dia?

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Escrevo porque

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Escrevo para ver se aprendo. Para poder conversar com você, mesmo que um dia eu não esteja mais. Para expulsar os demônios e para que os cegos sintam alguma vantagem. Escrevo para desalento dos puristas. Para desânimo dos gramáticos eu escrevo. Para os insones. Contra os insetos. Porque o professor mandou e eu me acostumei. Pela eternidade de um dia. Agradar a gregos e desagradar a troianos ou vice-versa.

Para que ao menos uma alma diga que gostou. Para esquecer e fazer esquecer. No caso da goiabada não saciar o suficiente. Para que os incapazes não se sintam sozinhos.

De teimoso, de pirraça, vingança, medo e a inútil esperança de que ela leia e se entregue. Para espanto dos amigos e desconcerto dos familiares. Porque achei mais interessante do que oito horas no escritório. E porque há estrelas demais, pelo menos umas setecentas a mais.

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Lá vai Maria

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Nenhum pio no elevador. Um breve comentário sem necessidade ecoa na garagem vazia, antes de entrarmos no carro. No caminho, passamos por 18 sinais – a maior parte, abertos. A vida, sempre em frente, não pode, não quer e nem sabe se deter. Atravessamos as ruas ainda sem as pessoas, cruzamos avenidas, mais silenciosas que de costume. Nem o rádio ligamos, vai que toca alguma música que nos faça derreter.

É o último dia de vida escolar de Maria. Hoje, eu a levo pela última vez ao Colégio. Nem seria preciso, já sabe andar sozinha, pegar ônibus, trem, metrô. Já foi a Minas, à Serra da Capivara, Amazônia, Europa, já dormiu em barco no meio do rio, rede em casa de pescador, oca de índio, no meio da floresta (aí contou que pouco dormiu, tamanho o barulho que os bichos e insetos e sabe-se lá que criaturas faziam de noite)… vê se precisa deste pai para se virar.

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Passaredo

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Bem-te-vi usa máscara para cortejar no anonimato.

Tucano só voa com aquele bico pesado porque a alma é mais leve que o ar.

As andorinhas são as maiores responsáveis por Francisco ter virado santo.

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Eis o problema

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O problema não é ficar sabendo que o mundo é milhares de vezes maior que São José (embora eu tenha minhas dúvidas). É mesmo assim a gente se afligir com algo que ficou sabendo de dia e não dormir de noite.

O enrosco não é entender que caberiam centenas e centenas de Terras no interior do Sol. É que, mesmo diante da nossa insignificância, a gente ainda ter certo pudor em tocar algumas campainhas.

Não é ser informado que, mesmo imenso, o Sol é uma coisica em comparação a outras estrelas gigantes. O grave é que o pessoal insiste em espalhar radares pela cidade como se essa fosse a prioridade do mundo.

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Da hora

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Chega uma hora em que não é mais desconcertante rever o grande amor. Mais provável ser atropelado na ciclofaixa. Tempo dos cabelos irem desistindo pelo caminho, das ilusões respirarem por aparelhos e de se munir de toda a paciência que resta quando alguém discute política como se fosse a coisa mais importante.

O tempo de tudo que ainda for possível. Da urgência de experimentar  uma fruta desconhecida. Caminhar por uma cidade onde nunca se esteve. Hora de dar menos autoridade ao despertador. De ficar horas matutando, tentando se lembrar do nome do colega de Ginásio. Quando o dia resolve ter a duração de 19 horas e cada sete anos passam a caber em cinco. Da sesta mais por obrigação que por opção.

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Quando se deixa de ser criança

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A gente deixa de ser criança quando não acha mais espirro engraçado. Nem homem careca (às vezes até vira um). Quando pensa que é a coisa mais normal do mundo a estátua do Cristo estar lá em cima da montanha e que passear no Bondinho é programa de turista. Deixa-se de ser criança por muito pouco.

A criança desaparece – plim – quando os olhos espiam um gramado e não sentem uma vontade incontrolável de procurar tatu bolinha. Quando passa a classificar hamburguer como comida, e não algo divertidíssimo que, se a gente apertar aqui, sai um molho ali, uma alface acolá, até saciar o desejo de sujar todos os dedos das mãos e o redor da boca num tanto que não há guardanapo que dê jeito.

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25

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Foi num 12 de outubro. Como era Dia das Crianças, fomos ao cinema ver Pinóquio. Prometemos encher o que um dia seria nossa casa de relógios cuco, nunca deixar o nariz crescer e evitar o estômago de baleias. Dois anos depois estávamos juntos, num dia 2 como hoje. Bodas da cor que vão tomando os cabelos. Muita gente dizendo “nossa, coisa rara, hoje em dia” e o tom não parece muito ser de aprovação. Por isso, todos os buquês e olhares e cuidados parecem pouco. Jantar marcado no restaurante, estamos nos arrumando, dividindo o espelho do banheiro.

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Preciso

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Preciso ir a São José. O tempo aqui é muito apressado. Se eu tivesse ido mais vezes, teria agora 42 anos, no máximo. Longe de São José a vida é atropelo.

Preciso ir porque o céu daqui quase não tem estrela e, quando a Lua cheia nasce, não acorda os galos que cantam, pensando estar nascendo o dia. Porque foi aniversário da madrinha Rosa e eu não pude ir. Porque preciso deixar flores para os meus pais e contar a eles como vão os netos e que aprendi a passar café.

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Sobre a ponte

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Oi, ponte. Olha eu aqui de volta.

Pronto. Agora o sujeito deu para falar com pontes. Não bastasse inventar conversa com passarinho, como se falasse com o pai, agora essa.

Deve ser a emoção de estar aqui de novo. Em 91, bati o recorde mundial de ficar olhando o mundo por esta ponte. Era de noite e fazia um frio do capeta, o que é uma péssima e inadequada imagem. Mesmo assim, encontrei um canto protegido do vento e fiquei horas espiando, pensando na vida.

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No céu não tem facebook

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Certo, é um pensamento besta. Se a gente for mais besta e se embrenhar no assunto, imagina que essas modernidades não devem impressionar muito o povo de lá. Para quem tem a eternidade pela frente, algo de novo é assunto por 300, 500 anos e todos ainda estão maravilhados com a descoberta do avião. E como será que o pessoal faz para aproveitar o tempo? Se para a gente alguns domingos de chuva demoram a passar, imagina ter todo o tempo do mundo. Se ficam a conversar, que tanto assunto eles têm? Há livros no céu? Baralho? Cinema, a obra completa de Victor Hugo, Programa Silvio Santos, War?

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Bem que vocês tentaram

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Dó que eu tenho do ônibus que se esforça em ser desagradável. Faz o possível, se esmera no barulho, na cadeira quebrada, no solavanco em cada troca de marcha, até faz entrar um cidadão que vende aos berros umas capinhas para celular bem mixurucas . Passa no vermelho e quase atropela o cidadão ali que cometia (o sonso) a imprudência de atravessar na faixa de pedestre.

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