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Cássio Zanatta

Cássio Zanatta has 44 articles published.

Seis horas e quase escuro

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Da janela, ela olha o outono e diz sentir uma tristeza. Mas não, o outono não é triste. Sua luz que é mais pensativa e bate de lado nas coisas, revelando os contornos. O sol se põe mais lentamente do que no resto do ano, é certo, e as estrelas dão para perder a hora. Tempo das mangas irem dormir e das primeiras mexericas e caquis. Os insetos, tão assanhados no verão, enfim nos dão sossego.

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Sala de espera

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Talvez seja o único lugar no mundo onde luz faz barulho. E esse arrepio por dentro, vem do chão sem carpete ou da sem-gracice da decoração? Na parede há uma foto de Paris, talvez para dar aquela esperança ao cidadão de rever Paris. Mesmo que esteja desbotada e não alcance esse objetivo, bem sempre faz.

Há mais duas pessoas na sala. Checam seus celulares, evitam a troca de olhares. Sou do tempo em que esse papel era incumbência das revistas semanais. Eram sempre de meses ou anos atrás, e eu ficava me perguntando qual seria a relação entre cura e revista velha.

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Nasce o senhor

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O que fazia um grilo numa estação de metrô às oito e meia da noite, desafiando os milhares de pés que pisavam ao seu redor? Não pensei nisso na hora, só me dei conta do prenúncio do juízo final depois. O que queria esse frio em março, esse moço com a camisa do Juventus e mochila do Vasco, do que ria a mulher da bilheteria quando me deu o troco?

No entanto, o inocente se arrastava até a plataforma. Já havia batido o recorde municipal de tropeçar pelo caminho; atribuí isso ao cansaço do dia de trabalho. Talvez (me dou conta agora) fosse meu corpo apelando para não ir adiante. Nem me apercebi das nuvens se assanhando com a reunião dos deuses, pedindo cerveja, preparando-se para o espetáculo.

Esperando na plataforma, chequei as mensagens no celular. Bem que podia ter recebido algo como “Pegue um táxi, você está cansado” ou “Fuja, é uma cilada”. Havia um vídeo fofo de um gatinho fofo deixando um bebê fofo dormir em seu pelo fofo. Mal sabia que havia uma pedrada no meio do caminho.

Foi então que houve.

O trem chegou e, antes que ele parasse, deu tempo de pensar no fiasco da não-aparição do cometa Halley em 1986 (por que isso viria à cabeça naquele exato momento, se não pela iminência de outra decepção?). Assim que a porta se abriu, entrei no vagão já cheio e procurei um espaço onde pudesse respirar. Segurei no corrimão que se prendia ao teto. E então – silêncio no estúdio – ao me ver, a moça se levantou de sua cadeira e disse:

– Por favor, senhor, sente-se. E me ofereceu seu lugar.

Em seguida, em perfeita sincronia, o sinal tocou, a porta se fechou num estrondo, alguém gargalhou do outro lado do vagão – de alguma piada que seu colega lhe contara, de algum vídeo no celular, não fofo mas gozadíssimo, ou o grilo entrou em sua calça e fez cócegas na perna?

O fato, senhor, é que o trem andou, senhor, ganhou velocidade, senhor, e pude ver no reflexo da janela o que 55 anos, 5 meses, 2 dias, algumas horas e outros tantos minutos – que me cansei de fazer conta – fazem com um destemperado senhor.

Atordoado, desci duas plataformas depois da minha. Peguei um táxi que apareceu por milagre (hoje estou meio bíblico) e o motorista perguntou:

– Para onde, amigo?

Juro que se ele tivesse dito “senhor”, eu daria uma traulitada na sua cabeça, assumiria o volante do táxi, sairia cantando pneu, esmagaria todos os grilos pelo caminho e formigas na falta deles, furaria todos os sinais vermelhos até invadir aquela nuvem onde santos de bata e auréola, meio bebinhos, já não riam, apenas choravam abraçados, cantando Lupicínio – coisa que muito os emociona.

Por outros motivos

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Não para vestir o casaco que eu só usaria em outro hemisfério. Nem porque – ai – acabam de inaugurar mais um shopping. Muito menos porque meia São Paulo vai estar lá. Vou a Campos de Jordão por outros motivos. Os plátanos estão amarelos e forrando as ruas de folhas secas. Porque, quando a tarde cai, nasce o cheiro das lareiras acesas. Porque a boca faz fumaça e o frio, silêncio.

Não porque gosto assim de dropes e pipoca. Vou ao cinema por outros motivos. Não lembrar que atrás daquele beijo apaixonado existe uma câmera, um microfone escondido e um diretor aos gritos é um deles. Sair do cinema se sentindo o galã, imitando os gestos do galã, é outro. Ficar com aquela cena na cabeça e lembrar dela em detalhes 18 anos depois.

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Impressionante

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Caminhava o sujeito pela calçada, esburacada como andam tantas na cidade; quando não é buraco, é o cocô que algum cachorro sem dono deixou pelo caminho. Quando tem dono, este costuma recolher o cocô com um saquinho plástico e jogar no lixo mais próximo. Outros, nem isso fazem: largam o saquinho ali mesmo, um cocô envelopado, esquisito.

Andava depressa para sua idade, devia ter lá seus 70, aprendeu a caminhar no ritmo de São Paulo. Sempre me intrigou essa pressa. Por que as pessoas aqui andam tão rápido? Não é possível que 12 milhões de pessoas estejam atrasadas para seus compromissos.

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Eu não estou bem

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Foi a topada no pé da cama. A picada que não foi culpa do marimbondo. O quarto gim sem gelo. O espirro que chegou na frente do lenço. Essa farpa que antes doesse no pé. A cera quente que pingou no braço. O excesso de velas sobre o bolo.

Foi a mudança de estação. Foi Saturno na casa de Mercúrio. A briga de Libra com a ascendência em Leão. O pólen no ar e a poça no chão. A pontada de lembrar o que se recusa a virar esquecimento. A dieta da lua no céu sem lua. A overdose de Nina Simone. O remorso de não ir faz tempo a São José. Certas vozes que faltaram no parabéns.

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Como chegar lá

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– Amigo, por favor: como é que eu faço para chegar lá?

– Chegar lá… hum… deixa eu ver… o senhor está com pressa?

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Meus quatro pés

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Quem me olha de fora pensa que eu tenho dois pés. De fato, já me vi no espelho e contei apenas dois, como os de uma pessoa comum. No entanto, preciso confessar uma coisa: eu tenho quatro pés. O direito, o esquerdo, o do meio e o entre eles. Desde que me conheço por gente, não sei como vocês não perceberam.

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Por pouco

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Ai.

Que foi?

Uma pontada. Aqui, do lado esquerdo, perto do braço, junto ao. Será o? Já para o pronto-socorro, vai que é um.

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O menino de cabelos brancos

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O menino de cabelos brancos desaprendeu a andar rápido. Desistiu de vez de encarar a balança e tentar combinar as roupas. Prefere espiar as peladas vagabundas na praia (de futebol, necessário esclarecer) e suas discussões seríssimas, e acontece da bola às vezes escapar do jogo e vir em sua direção. Pensa consigo: a bola procura os grandes craques. Conclusão: a idade não atenua a patetice.

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Aquela música

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Foi passando debaixo da janela que ouvi a música. Vinha de dentro da casa e em mim penetrou a melodia que nunca havia escutado, mas já tão conhecida. Quatro minutos de estátua. Capturou cada pedaço meu e dizia coisas de grande beleza com aquela brutalidade e sem-cerimônia com que a beleza nos invade.

Olhei em volta e tudo estava contagiado. Havia graça na calçada esburacada, no cachorro pulguento estirado na calçada, obrigando os pedestres a se desviarem. No hidrante abandonado e sem serventia, no céu prometendo chuva, as nuvens apostando corrida. A farmácia fechada na esquina era de um bonito estarrecedor. Não havia ninguém à janela, mas imagino que uma menina doce e que só anda descalça more ali. Boa parte do seu dia ela passa diante do espelho, arrumando os cabelos para trás, num ensaio cuidadoso para quando for a hora de lançar o feitiço.

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Preciso ir ao shopping

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Preciso ir ao Shopping Bourbon. Deixei de viajar para o mato, cancelei a tomografia de tórax, o computador vai ficar mais um dia quebrado, porque eu preciso ir. Não gosto de shopping, prefiro tão mais andar na rua, onde a gente pode tomar garoa, afundar o tênis na poça, ser assaltado à luz do dia ou topar com o Exército da Salvação. Mas o que eu quero, só tem no Shopping Bourbon.

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