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Cássio Zanatta

Cássio Zanatta has 73 articles published.

Oito horas e um minuto

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Acordo com a explosão do Vesúvio. Caos, pânico, paredes tremendo, o barulho que o fim do mundo deve fazer. Mas não estou em 79 DC, não estou em Pompeia, e sim dormindo numa cama confortável em Santos no verão de 2018, o ar-condicionado está ligado e hoje é sábado.

Leva um tempo para a gente se dar conta de onde está, que o mundo não acabou e que o barulho vem de uma reforma no apartamento de cima. Posso imaginar o grupo de dedicados pedreiros destruindo com determinação essas paredes grossas de antigos apartamentos, e que isso exige força, martelos e marretas poderosas.

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A tal foto

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Na tal foto ela olha para o chão, em muitas fotos ela olha para o chão. De vergonha, timidez, ou será que ela sabe? O que carregou de sua terra, o que aprendeu na Pauliceia? Talvez não quisesse que sua luz fosse registrada, talvez seja para nos poupar, já que seu olhar carrega perigos. Não deixa de ser um alívio que ela não nos encare de frente.

Sou mais nuvem que chão. Pouco provável então que ela me encontre olhando para baixo, o que é triste. Se bem que uma chance tenho: às vezes sou caramujo, meu arrastar é lento e fechado. No mais, em geral estou no ar. Minhas chances são pequenas.

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Coitado do Ano Novo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Eu não queria estar na pele de 2018. Não, eu não acho que vá ser um ano ruim não, ao contrário, sou uma mula empacada no otimismo. Mas vejo as pessoas depositando tanta esperança, exigindo tanto do pobre que ainda nem chegou direito – tenha dó, gente.

O gordo fala em perder 15 quilos (nada de pensar pequeno, achar que 3 já bastam, o ano que se vire). O endividado sonha com os números da Loteria da Virada. O torcedor há tanto tempo na fila, com o surgimento do craque. O encalhado no sentido literal, em viajar para 5 continentes, incluindo o Butão; o no sentido sentimental, em encontrar o Grande Amor, coisa que os últimos anos foram uns incompetentes ou insensíveis em arrumar.

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Contagem regressiva

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Vamos lá, gente! Todo mundo de taça na mão?

– O último brinde de 2017!

– Formando uma roda no quintal. Rápido, rápido.

– Criançada, aqui no meio.

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A resposta das ondas

em Cássio Zanatta/NY Times por

Deve haver algum sentido no trabalho das ondas. Essa sequência vagarosa há de trazer uma revelação. Uma a uma, lá vêm elas, em calma procissão, como uma passeata de águas e espumas que nada reivindica.

Fazem isso há milênios, já tentaram alertar os poderosos, minimizar as autoridades, acalmar aflitos, mas os homens, ignorantes em sua pressa e autoconfiança, não param para ouvir. Por isso às vezes estouram com mais barulho, violentas, impacientes. Se ainda ignoradas, alcançam a areia, destroem calçadas, jardins, invadem garagens e depositam areia nos bancos dos carros. Os homens, assustados, dão a isso o nome (errado mais uma vez) de ressaca e fecham os ouvidos.

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Pedaços colados

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Dizem que para os lados de Batatais há um especialista em juntar cacos. Aqueles, que em algum momento da vida a gente sabe que se partiram feio. Algo os quebrou: uma desilusão, um equívoco, o pouco caso. Um pedaço ficou na mesa de um bar vagabundo; outro, numa mensagem no celular; outro ainda, num encontro inesperado, desses que a vida se diverte em maquinar e disfarçar de coincidência.

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Estou em missão

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não se deixe enganar pelo ar avoado. Este olhar para o alto que  desequilibra fácil o cidadão, o esquecimento conveniente, a surdez que faz que não ouve o chamado – tudo fingimento.

Posso explicar. Estou aqui em missão. Não quero parecer alarmista ou me fazer de importante, mas fui convocado com alguma urgência para, vamos dizer, afrouxar o nó, aliviar a carga, dividir o peso, segurar o tranco.

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O silêncio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Escuta como pesa. Era para ser nada, resolveu ser martelo. Silêncio coisa alguma, invade o ouvido e insiste num zumbido infernal de tão inexistente.

Vou interfonar para o vizinho reclamando dessa porra de silêncio. Vou sair de pijama na rua, irromper no bar e dar um esculacho nos briacos calados. Invadir a festa que não há no 31 e dizer que assim não é possível. Pular a grade do prédio vizinho, ignorar os braços agitados do porteiro dentro da guarita, subir correndo as escadas e esmurrar delicadamente a porta do sujeito que não berrou da janela no gol do adversário.

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Este seu olhar

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Este seu olhar, quando encontra o meu, fala de umas coisas que não tem cabimento imaginar. Fala de silêncios e de uma distância que só anda de fasto, do improvável mais impossível, de desassoreamento, numa língua de difícil tradução.

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Na fila da Imigração

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A fila anda lenta, parece que hoje a exigência está maior. Por causa dessa onda de atentados, talvez. As perícias são sem simpatia nem curiosidade. Por que, em vez de “Quanto tempo pretende ficar?” ou “Possui emprego fixo?” não perguntam se vamos dormir até mais tarde, arriscando-nos a perder o café da manhã no hotel, ou se com mexilhões preferimos vinho branco ou rosé. Isso revelaria tão mais nossa identidade e reais intenções. Mas não, nenhum deles tem cara de quem quer saber essas coisas.

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O que dizem as folhas

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Um vento forte na madrugada derrubou as folhas das quatro mangueiras atrás da velha casa, o que não deixa de ser estranho: a gente olha para o alto e todas as folhas parecem ainda estar lá. Mas o chão está forrado de folhas caídas. Piso nelas e não acontece barulho algum, o sereno da madrugada as umedeceu e emudeceu.

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Minha primeira vez

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Quem alertou minha mãe foi a professora:

– O menino não enxerga lá muito bem.

– Como assim? – duvidou minha mãe.

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