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Cássio Zanatta

Cássio Zanatta has 64 articles published.

Na fila da Imigração

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A fila anda lenta, parece que hoje a exigência está maior. Por causa dessa onda de atentados, talvez. As perícias são sem simpatia nem curiosidade. Por que, em vez de “Quanto tempo pretende ficar?” ou “Possui emprego fixo?” não perguntam se vamos dormir até mais tarde, arriscando-nos a perder o café da manhã no hotel, ou se com mexilhões preferimos vinho branco ou rosé. Isso revelaria tão mais nossa identidade e reais intenções. Mas não, nenhum deles tem cara de quem quer saber essas coisas.

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O que dizem as folhas

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Um vento forte na madrugada derrubou as folhas das quatro mangueiras atrás da velha casa, o que não deixa de ser estranho: a gente olha para o alto e todas as folhas parecem ainda estar lá. Mas o chão está forrado de folhas caídas. Piso nelas e não acontece barulho algum, o sereno da madrugada as umedeceu e emudeceu.

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Minha primeira vez

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Quem alertou minha mãe foi a professora:

– O menino não enxerga lá muito bem.

– Como assim? – duvidou minha mãe.

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O homem vitorioso

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O homem vitorioso chega ao evento confiante. Desce do carro guiado pelo motorista (um homem vitorioso não dirige carros) e é saudado pelos flashes. Uma multidão o cerca mas, a um sinal seu, todos abrem caminho. O pavio que faz explodir o espetáculo é aceso com sua chegada.

Todos querem estar junto a ele, sentir o brilho, pegar emprestado seu sucesso. A todos ele concede um sorriso de certezas (o homem vitorioso sabe disfarçar bem). Não são dentes de quem levou porrada nesta vida ou, se a levou, o dentista fez um bom trabalho. Parece estar sempre de perfil, oferecendo seu lado mais favorável aos fotógrafos.

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Ao amigo Marcelo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Comunico que a última contabilidade do número de taças e copos e doses que tomamos juntos desde 1977 está em 1.299. Que não há entre eles registro de batida de mangaba, licor de framboesa ou vermutes. Precisamos ver isso aí.

Ao amigo que já confessei coisas que não dividiria nem com o Papa, digo que o coração está tranquilo, que na feira tem pouca fila no pastel e que essas idas constantes para o mato têm me feito bem.

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A morte e a vida pela janela

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Hoje eu não queria escrever. No entanto, talvez por isso mesmo seja preciso escrever. Ou gritar. Ou não gritar, pelo contrário: calar-se num canto. Ou dividir um vinho só falando com os olhos e brindando com a mão esquerda, já que a direita está muito ocupada, tocando com calma a mão querida.

Houve que, voltando de um café na padaria, vi uma aglomeração em frente a um prédio da minha quadra. Aproximei-mais para sapear o que era e uma moça me contou: um homem acabara de se jogar da janela. Morrera há poucas horas, a terra do jardim ainda estava revolvida. O homem caiu sobre um canteiro de lírios que nada puderam fazer. Tinha só 35 anos.

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O roxo da amora

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Na cidade tem muita sujeira, disputa e pernilongo, mas também tem amora. Amoreira deve gostar de poluição, inversão térmica, caminhão de lixo, luminoso de néon, obra do metrô, sei lá, porque aqui tem mais do que na minha terra e não era para ser assim.

Fato é que as amoreiras fizeram bem à cor roxa. O roxo nunca foi muito apreciado. Costuma aparecer em velórios, machucados, trajes de bruxas e isso não contribui para sua reputação. Até que chega essa época do ano e o roxo pinta as calçadas. Alguém dirá “suja”, mas não vamos levar esse alguém em consideração.

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A morte do garrote

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De quem foi a ideia, afinal, de quem? Não pergunto por aquela de abater o garrote para fornecer carne a mais de trinta pessoas durante as férias na fazenda. Isso faz sentido. Quero saber de quem foi a ideia de levar as crianças para apreciar o espetáculo.

Se a intenção era apresentar a elas o horror que há no mundo, para ir tirando das cabecinhas de oito, dez anos, que isso aqui não se resume a flores, nuvens e paçoca, entendi.

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Nada, nada, nada

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– Não. O Belchior, não.

– Essa doeu.

– Um dos grandes.

– Todos indo embora.
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Herança

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Herdei da vida uma alma leve num corpo tosco. Corpo que chuta o pé da cama, que sabe tossir, produzir lágrimas, sêmen e pelos, e tem duas pernas que sofrem para suportar o peso, quanto mais uma alma. Por isso ela derrete fácil, paira à toa, ao invés deste tronco difícil de vergar.

Minha terra me legou a busca pelo horizonte e as curvas dos morros, a necessidade de saber o nome das árvores, o matutar vagaroso, olhar para as pessoas na rua em busca de um conhecido, e isso de estar sempre meio deslocado em terras frias.
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O segredo das estrelas

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– Dalva, está vendo aquela estrela ali?

– Onde?

– Bem na ponta do meu dedo, ó.

– Qual, a que faísca?

– Não, mais pra esquerda. Do lado daquela alaranjada.

– Sei.

Ela se encosta nele para ver melhor e a quentura compensa a noite fria.

– Então. Aquela coisica de nada é quinhentas vezes maior que o Sol.

– Sério?

– E aquela nuvem branca, que corta o céu quase de ponta a ponta?

– Eu estava mesmo estranhando: uma noite tão limpa, estrelada, de onde ela saiu?

– Não é nuvem, Dalva. É a Via Láctea. São bilhões e bilhões de estrelas, tantas e tão distantes, que parecem uma nuvem.

– Nossa.

– Agora, o melhor: nosso Sistema Solar faz parte da Via Láctea.

– Como assim?

– A Terra, a Lua, o Sol, os planetas à nossa volta, nosso Sistema Solar está contido na Via Láctea, aquela galáxia que parece estar no fim do mundo.

– Ah, vá.

– Pra você ver a grandeza. E já, já, naquele horizonte, vai nascer a Lua e a claridade dela vai apagar a maioria das estrelas que a gente vê.

– Podia demorar mais um pouco.

Ele aproveita o escuro para enfiar o dedo no nariz e fazer uma limpeza básica.

– E aquela coisa cruzando o céu, piscando?

– Estou vendo. Uau. O que é aquilo?

– É só um avião, Dalva – seu riso quebra a quieteza da noite.

– Ah…

– Agora imagine que, no foguete mais rápido já inventado pelo homem, uma viagem até a estrela mais próxima do Sol levaria uns 200 anos.

– Sabe que essas coisas me deixam meio tonta?

– Doido é pensar que aquela estrela ali já tenha explodido há dois mil anos, mas a luz que ela ainda emitia só está chegando aos nossos olhos agora. E aquela triângulo ali, quase se pondo? São as Plêiades. Outra galáxia longe pra burro.

– Você sabe muita coisa.

Os dois ficam em silêncio, deitados na areia. De vez em quando, um morcego e seu estranho barulho que lembra o do rato.

– Benhê.

– Oi?

– Eu também preciso te contar umas coisas.

– Diga.

– Já fiquei com o Luizão, com aquele seu amigo engenheiro não muito chegado num banho e com o fortão da lanchonete que nem sei o nome. Aquele de bigode.

– Você não está me ouvindo, Dalva. Plêiades vem da mitologia grela Eram 7 irmãs: Asterope, Merope, Electra, Maia, Taygeta, Celaeno e Alcyone, que, segundo os antigos – alá! Eu vi, eu vi: uma estrela cadente!

 

 

 

Pedras que rolam

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Há milhares de pedras na beira da estrada. Por algum motivo (o vento é que não foi), uma mais destemida deixou o acostamento, invadiu o asfalto e foi parar no meio da pista, onde ficou no aguardo.

Daí que cruzamos com um carro em sentido contrário e, na passagem, um dos pneus atirou a pedra. Ela se libertou, saltou no ar com desajeito e voou até encontrar o vidro do nosso carro. Em um milésimo de segundo, o vidro todo se partiu em centenas de cacos. Quantos milhões de outras pedras sonham com essa realização. Milhões, milhares, centenas… Vejam que pedras adoram números exagerados.

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