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Cássio Zanatta

Cássio Zanatta has 52 articles published.

Fazendo espuma

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Então me peguei pensando na palavra espuma. Veja a que ponto leva a falta do que fazer: o sujeito fica olhando para as nuvens, jogando tempo fora e começa a matutar sobre uma palavra.

Mas de fato eu pensava na beleza da palavra espuma. Mestre Aurélio a define em seu dicionário como “minúsculas bolhas que se formam num líquido geralmente viscoso…”. Não era essa imagem que eu tinha na cabeça. Era a da água do mar, que nada tem (ou nada devia ter) de viscoso. A definição ainda fala em “propriedades saponáceas”, mas não acho que a espuma da onda quando bate no corpo limpe o que quer que seja, a não ser a alma.

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Maria cortou o cabelo

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O barulho da chave interrompeu o parágrafo, a porta de casa abriu, ergui a cabeça do livro e – catapimba – dei com Maria criança. Passado o susto bom (que não são só os ruins que acontecem nesta vida), entendi: Maria havia cortado o cabelo. Curto como quando era pequena. Levou um tempo até que eu entendesse.
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A mulher do tempo

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Você tem razão em reclamar dessa garoinha insistente, do toró que cai bem na hora do rush e complica sua volta para casa, ou desse sol que sai com tudo quando você está de casaco.

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Eu posso voar

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Você caminha por um bairro qualquer da sua cidade, bom, pelo menos parece a sua cidade, são as pessoas com quem você cruza na rua, desviando dos camelôs na calçada, na disputa por um lugar no balcão da padaria. Para espanto dessas pessoas da sua cidade, no meio do quarteirão, você, sem mais nem menos, começa a bater as asas, ou melhor, os braços, e levanta voo.

Aí está ele. O bom e velho sonho de que pode voar. Fazia tempo que não aparecia. Pensei que nessa idade não fosse mais sonhar com isso.

A cada braçada, você se eleva um pouco. Cada vez mais alto, você dá aos companheiros no chão um tchauzinho superior. Superior, não no sentido de se sentir mais importante, é que você está acima de todos mesmo: está voando, ué. Eles apontam para você, impressionados. Por que esse espanto? Deve ser a trigésima vez que sonho com isso, o pessoal já devia estar acostumado.

O estranho é que no sonho você pensa: ah, isso não pode ser, devo estar sonhando. Mas tudo é tão real, perfeito, você não quer aterrisar, se beliscar, quer ficar ali, planando. E se não for verdade, por que não aproveitar a sensação, dura tão pouco, vai saber quando o tema virá de novo.

Os amigos lhe disseram ter o mesmo sonho. Com alguns, aconteceu que, de repente, despencavam lá de cima. Nunca foi o seu caso, nunca que virou pesadelo. Quem testemunhasse seu sono veria um sorriso tranquilo, em paz, estranharia talvez os braços abertos em cruz, pensaria que o sujeito sonhava ser Jesus Cristo.

Por que esse sonho resolveu voltar e outros, não? Por onde anda aquele, do trem vindo e você tentando correr pelos trilhos, mas as pernas parecem não obedecer, cada vez mais pesadas e lentas. E aquele em que você se descobre pelado no meio da festa?

No sonho você domina as correntes de vento, passa despercebido pelos radares, voa entre os prédios, olha as pessoas na sala assistindo ao Silvio Santos, molda as nuvens, comenta com o Super Homem o clássico da rodada, é apresentado a um lado das árvores que só as aves conheciam e é o último na cidade a ver o sol se pôr. Só não entende por que está sozinho. Venham, vamos formar uma esquadrilha, é tão fácil: basta dar o impulso fechando os braços e com as mãos em concha.

Então, você acorda. É o despertador, é algum rojão, a colisão com um urubu na rota oposta. Não há final triste ou feliz, nada se pode concluir, só lamentar não ter tido tempo de cuspir em ninguém lá de cima (alguns mereciam), nem se mostrar assim, passarinho, para ela.

Meio sonado, você anda pelo quarto, para diante da janela, para checar se lá fora outro alguém está tendo o mesmo sonho. Nada, todos estão acordados e apressados. Em seguida, escorre lentamente até o banheiro. No caminho, chuta o pé da cama e diz um palavrão para o nada. Quem sabe voar não devia passar por essas humilhações.

Mas, um momento. E se você ainda estiver dormindo e apenas sonha que acordou? E se abrir essa janela? E se saltar, batendo os braços? O pessoal ia ficar muito impressionado.

O dia em que ninguém morreu

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Houve um terremoto no Nepal, um tiroteio em Bogotá, uma mina que se supunha desativada explodiu num subúrbio de Bremen e até um cardíaco ganhou cinquenta milhões na loteria, mas foi inútil. Domingo, feita a contabilidade, ninguém morreu no mundo.

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Meu pai sentado num camelo

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Poucas pessoas no mundo têm parentes em Divinolândia. Eu tenho. Divinolândia é vizinha de São José. Uma cidade pequena, simpática, que cultiva café, batata e hoje produz até vinhos bem conceituados. Mas do que eu gosto mesmo é do seu antigo nome: Sapecado. Imagino que o nome tenha nascido de quando ainda era um punhadinho de casas espalhadas num morro, Sapecado, tão mais simpático que Divinolândia. Deviam ter mantido. Enfim.

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Seis horas e quase escuro

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Da janela, ela olha o outono e diz sentir uma tristeza. Mas não, o outono não é triste. Sua luz que é mais pensativa e bate de lado nas coisas, revelando os contornos. O sol se põe mais lentamente do que no resto do ano, é certo, e as estrelas dão para perder a hora. Tempo das mangas irem dormir e das primeiras mexericas e caquis. Os insetos, tão assanhados no verão, enfim nos dão sossego.

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Sala de espera

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Talvez seja o único lugar no mundo onde luz faz barulho. E esse arrepio por dentro, vem do chão sem carpete ou da sem-gracice da decoração? Na parede há uma foto de Paris, talvez para dar aquela esperança ao cidadão de rever Paris. Mesmo que esteja desbotada e não alcance esse objetivo, bem sempre faz.

Há mais duas pessoas na sala. Checam seus celulares, evitam a troca de olhares. Sou do tempo em que esse papel era incumbência das revistas semanais. Eram sempre de meses ou anos atrás, e eu ficava me perguntando qual seria a relação entre cura e revista velha.

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Nasce o senhor

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O que fazia um grilo numa estação de metrô às oito e meia da noite, desafiando os milhares de pés que pisavam ao seu redor? Não pensei nisso na hora, só me dei conta do prenúncio do juízo final depois. O que queria esse frio em março, esse moço com a camisa do Juventus e mochila do Vasco, do que ria a mulher da bilheteria quando me deu o troco?

No entanto, o inocente se arrastava até a plataforma. Já havia batido o recorde municipal de tropeçar pelo caminho; atribuí isso ao cansaço do dia de trabalho. Talvez (me dou conta agora) fosse meu corpo apelando para não ir adiante. Nem me apercebi das nuvens se assanhando com a reunião dos deuses, pedindo cerveja, preparando-se para o espetáculo.

Esperando na plataforma, chequei as mensagens no celular. Bem que podia ter recebido algo como “Pegue um táxi, você está cansado” ou “Fuja, é uma cilada”. Havia um vídeo fofo de um gatinho fofo deixando um bebê fofo dormir em seu pelo fofo. Mal sabia que havia uma pedrada no meio do caminho.

Foi então que houve.

O trem chegou e, antes que ele parasse, deu tempo de pensar no fiasco da não-aparição do cometa Halley em 1986 (por que isso viria à cabeça naquele exato momento, se não pela iminência de outra decepção?). Assim que a porta se abriu, entrei no vagão já cheio e procurei um espaço onde pudesse respirar. Segurei no corrimão que se prendia ao teto. E então – silêncio no estúdio – ao me ver, a moça se levantou de sua cadeira e disse:

– Por favor, senhor, sente-se. E me ofereceu seu lugar.

Em seguida, em perfeita sincronia, o sinal tocou, a porta se fechou num estrondo, alguém gargalhou do outro lado do vagão – de alguma piada que seu colega lhe contara, de algum vídeo no celular, não fofo mas gozadíssimo, ou o grilo entrou em sua calça e fez cócegas na perna?

O fato, senhor, é que o trem andou, senhor, ganhou velocidade, senhor, e pude ver no reflexo da janela o que 55 anos, 5 meses, 2 dias, algumas horas e outros tantos minutos – que me cansei de fazer conta – fazem com um destemperado senhor.

Atordoado, desci duas plataformas depois da minha. Peguei um táxi que apareceu por milagre (hoje estou meio bíblico) e o motorista perguntou:

– Para onde, amigo?

Juro que se ele tivesse dito “senhor”, eu daria uma traulitada na sua cabeça, assumiria o volante do táxi, sairia cantando pneu, esmagaria todos os grilos pelo caminho e formigas na falta deles, furaria todos os sinais vermelhos até invadir aquela nuvem onde santos de bata e auréola, meio bebinhos, já não riam, apenas choravam abraçados, cantando Lupicínio – coisa que muito os emociona.

Por outros motivos

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Não para vestir o casaco que eu só usaria em outro hemisfério. Nem porque – ai – acabam de inaugurar mais um shopping. Muito menos porque meia São Paulo vai estar lá. Vou a Campos de Jordão por outros motivos. Os plátanos estão amarelos e forrando as ruas de folhas secas. Porque, quando a tarde cai, nasce o cheiro das lareiras acesas. Porque a boca faz fumaça e o frio, silêncio.

Não porque gosto assim de dropes e pipoca. Vou ao cinema por outros motivos. Não lembrar que atrás daquele beijo apaixonado existe uma câmera, um microfone escondido e um diretor aos gritos é um deles. Sair do cinema se sentindo o galã, imitando os gestos do galã, é outro. Ficar com aquela cena na cabeça e lembrar dela em detalhes 18 anos depois.

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