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Berliner Mauer

em Ghost Writer por

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Como caído? As pessoas passam e gritam apontando um ponto qualquer, logo à frente, engolido pela escuridão da noite. Um velho, mais de oitenta anos, tenta me puxar pela camisa. Outros tantos o seguem – o êxtase.

Um mundo reduzido ao pó dos dias, mãos e pás, picaretas afoitas disputando pedaços. O que se fez de pé a partir de uma madrugada agora jaz estatelado igualmente em poucas horas. Os da frente batendo com fúria. Não desviasse dos golpes teria metal dentro das costas; as carnes dilaceradas pelos instrumentos movimentados violentamente.

Abrindo espaço ao meu lado, dois garotos que se empurram – e me ignoram- disputando a face de pedra onde pousar seus murros. As mãos não chegavam tão longe, aproveitam, testam e depois atacam. Aproveitar o agora, o depois é distante e incerto.

Foram os soldados os primeiros a atacar. Boatos, notícias incertas, era o permitir-se ao desejo de todos, colocar a longa estrutura ao solo, abrir a cidade que sangra dividida há décadas. Certo ou errado? Não importa, um corpo cortado ao meio teria cura? Não sei de que lado fico. Óbvio que não entre os que não têm mais o que defender. Digo do muro, nesse instante. Se lá com os que comemoram, ou desse em que a festa transforma-se em fragmentos de pedras, rapidamente recolhidas em sacolas e mochilas.

Fico junto à fileira dos soldados – de qual lado? Estão misturados, nem eles sabem o que fazer. Certo que alguns pensam ‘perdi o emprego, e agora?’. Parecem ter medo como se a multidão os fizesse em escolha para o ataque. Ao chão, algumas armas abandonadas, desertores em pressa, fugindo antes que o êxodo se intensifique mais, os soldados do lado de cá as recolhem – na falta de onde guardar pedem emprestado o veículo de uma rede de televisão. Abraçam o repórter. E agora? Não há ordens, protegiam algo que é findo, o muro ao chão. Carros em longa fila iluminam a cidade que se esvazia ao sair dos moradores. Algumas mulheres com traços pesados, as rugas e fundas marcas no rosto apontando a indiferença pelo episódio; pouco importa o muro, mostram cartazes. Nele uma foto, a escola naquele tom que só as fotos antigas adquirem. São jovens e estão perdidos no tempo. Distam de formas e idades aqueles rostos hoje, as mulheres o sabem. Dos seus apartamentos, anos atrás, viram os filhos num salto romper o arame farpado e as linhas de guardas que agora se desmancham aos seus pés. Estariam vivos? Pode ser que estejam guardados em covas sem fotos ou nomes de um cemitério qualquer. Andam com as cartolinas acima da altura dos ombros, em um nada falar, não precisam. Todos sabem que procuram os filhos. Não há o barulhos dos cães, o engatilhar de armas, as sirenes e carros patrulhando o muro. Placas de concreto são trazidas ao solo, nas antigas guaritas que regulavam a entrada e saída de pessoas o fluxo agora é de apenas um curso, como rio que corre sempre na mesma direção. Carimbos legitimam a saída. Há pressa e delírio. Pouco importa o futuro…

Descido o muro, feito em pedaços, poeira e histórias que transitam fáceis, há o mundo. Um universo estranho em que não há proteção. Escolhas têm sempre consequências. A notícia é maior que o fato. Não termina em si, corre-se em letras e vídeos, as palavras nos jornais, de boca em boca mudando sempre “caiu, o muro, o comunismo, logo Cuba, a China, caiu, o mundo”. Recolho um fragmento do solo, abarrotado de lembranças e o guardo. O impacto da notícia, o ato…No dia estive presente entre as partes que tombaram.

Marcelo Adifa

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