fbpx
Friday, January 22, 2021
-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-


Cabelos roxinhos

     Uma prima de Descalvado. Uma amiga de infância. A bordadeira de anos da família. Alguém que fora ama-de-leite de…

By Redação , in Brasil Mundo News & Trends São Paulo , at 22/12/2020

     Uma prima de Descalvado. Uma amiga de infância. A bordadeira de anos da família. Alguém que fora ama-de-leite de minha mãe. Uma antiga vizinha que apareceu para um café. Uma freira. Enfim: sempre havia uma senhorinha na casa da avó. Invariavelmente, de cabelo roxinho, fazia-nos parar de correr para vir com o clássico:

     – Você é de quem, meu bem?

     Eu respondia que era filho da minha mãe e ela achava nisso muita graça. Ou, antes de achar graça, vinha o “Não! Como cresceu!” Cumprido o ritual, ela erguia sua bolsinha e ia cumprimentar as outras pessoas na sala. Estávamos liberados para reiniciar o salseiro no quintal.

     Eram tão frágeis nossas velhinhas. Tudo nelas era inofensivo, menos a mania de apertar e puxar nossas bochechas até doer. Além dos cabelos da mesma cor, tinham o hábito de usar muito perfume. A sala parecia uma animada loja de cosméticos.

     Era servido o chá, rosca e um prato de biscoitos de sequilho. Como criança nunca gostou de sequilho, talvez fosse a garantia de que elas podiam comer e conversar em paz. Não houve uma vez em que uma delas não engasgasse e era preciso providenciar um copo d’água. Comentavam a novela, a beleza do sermão do padre, que seu Tonico Padeiro finalmente descansou (curioso como o sobrenome das pessoas eram substituídos pela profissão: o Zé Barbeiro, o Chico do Banco, a Rosa Doceira).

     De vez em quando, ficavam na sala caladas, balançando as pernas ou sorrindo para alguém em algum antigo retrato. A pausa era um alívio para a tia surdinha que ficava alheia à conversa. Cabelos presos e vestidos sempre pretos ou muito escuros, já que a viuvez era um estado vitalício. As visitas duravam até a noite, os primos mais velhos tinham que levar cada uma de carro pra casa. Quando saíam, minha mãe e tios comentavam tristes como uma ou outra tinha envelhecido, até outro dia…

     Curioso era que, vendo de hoje, elas tinham 63, 65 anos, não tinham tanta idade assim, mas se portavam, se vestiam como velhinhas. Cada uma com um broche no vestido e um terço na mão. Hoje, alguém de 68 pula de paraquedas, sola guitarra com os dentes e completa a maratona. E não se conforma facinho com a viuvez, logo arruma um pretendente. Imagino como seriam assunto para as nossas senhoras, que reprovariam ofendidas tal comportamento.

     Tínhamos consideração pelas velhinhas de cabelo roxo. Faziam parte da casa. Ajudávamos quem precisava de apoio para se levantar do sofá, não negávamos nossas bochechas e beijávamos suas mãos enrugadas (a pessoa pode fazer três plásticas, pilates duas vezes por semana, lipoaspiração, que não adianta: as mãos sempre entregam a idade). É, tínhamos consideração pelas nossas velhinhas.

     Não sei se hoje ainda é assim. Se anda difícil até achar biscoito de sequilho e uma rosca que preste.

Comments


Deixe uma resposta


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *