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Coluna

A velha que varre a calçada

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A velha que varre a calçada já não varre mais a calçada. Costumava ficar horas na varredura, diariamente. Há semanas não a vejo. Sofreu um troço? Foi sequestrada por gente que tem alergia ao pó que a vassoura assanha? Mudou para uma clínica de repouso em Jaboticabal? Ou, depois de anos, parou para se perguntar, afinal, para que serve varrer a calçada todo dia?

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Perdemos a paciência

em Monocotidiano/News & Trends por

Perdemos a paciência.

Desaprendemos a esperar.

As respostas estão todas na mão.

Esqueceu o nome daquele ator?

Aquele, que fez aquele filme… Que era o vilão naquela série… Agora a dúvida não duraria mais que alguns segundos antes de algum smartphone trazer a solução do caso.

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Escrevo porque

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Escrevo para ver se aprendo. Para poder conversar com você, mesmo que um dia eu não esteja mais. Para expulsar os demônios e para que os cegos sintam alguma vantagem. Escrevo para desalento dos puristas. Para desânimo dos gramáticos eu escrevo. Para os insones. Contra os insetos. Porque o professor mandou e eu me acostumei. Pela eternidade de um dia. Agradar a gregos e desagradar a troianos ou vice-versa.

Para que ao menos uma alma diga que gostou. Para esquecer e fazer esquecer. No caso da goiabada não saciar o suficiente. Para que os incapazes não se sintam sozinhos.

De teimoso, de pirraça, vingança, medo e a inútil esperança de que ela leia e se entregue. Para espanto dos amigos e desconcerto dos familiares. Porque achei mais interessante do que oito horas no escritório. E porque há estrelas demais, pelo menos umas setecentas a mais.

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Lá vai Maria

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nenhum pio no elevador. Um breve comentário sem necessidade ecoa na garagem vazia, antes de entrarmos no carro. No caminho, passamos por 18 sinais – a maior parte, abertos. A vida, sempre em frente, não pode, não quer e nem sabe se deter. Atravessamos as ruas ainda sem as pessoas, cruzamos avenidas, mais silenciosas que de costume. Nem o rádio ligamos, vai que toca alguma música que nos faça derreter.

É o último dia de vida escolar de Maria. Hoje, eu a levo pela última vez ao Colégio. Nem seria preciso, já sabe andar sozinha, pegar ônibus, trem, metrô. Já foi a Minas, à Serra da Capivara, Amazônia, Europa, já dormiu em barco no meio do rio, rede em casa de pescador, oca de índio, no meio da floresta (aí contou que pouco dormiu, tamanho o barulho que os bichos e insetos e sabe-se lá que criaturas faziam de noite)… vê se precisa deste pai para se virar.

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Passaredo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Bem-te-vi usa máscara para cortejar no anonimato.

Tucano só voa com aquele bico pesado porque a alma é mais leve que o ar.

As andorinhas são as maiores responsáveis por Francisco ter virado santo.

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Eis o problema

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O problema não é ficar sabendo que o mundo é milhares de vezes maior que São José (embora eu tenha minhas dúvidas). É mesmo assim a gente se afligir com algo que ficou sabendo de dia e não dormir de noite.

O enrosco não é entender que caberiam centenas e centenas de Terras no interior do Sol. É que, mesmo diante da nossa insignificância, a gente ainda ter certo pudor em tocar algumas campainhas.

Não é ser informado que, mesmo imenso, o Sol é uma coisica em comparação a outras estrelas gigantes. O grave é que o pessoal insiste em espalhar radares pela cidade como se essa fosse a prioridade do mundo.

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Da hora

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Chega uma hora em que não é mais desconcertante rever o grande amor. Mais provável ser atropelado na ciclofaixa. Tempo dos cabelos irem desistindo pelo caminho, das ilusões respirarem por aparelhos e de se munir de toda a paciência que resta quando alguém discute política como se fosse a coisa mais importante.

O tempo de tudo que ainda for possível. Da urgência de experimentar  uma fruta desconhecida. Caminhar por uma cidade onde nunca se esteve. Hora de dar menos autoridade ao despertador. De ficar horas matutando, tentando se lembrar do nome do colega de Ginásio. Quando o dia resolve ter a duração de 19 horas e cada sete anos passam a caber em cinco. Da sesta mais por obrigação que por opção.

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Aparece lá em casa

em Monocotidiano/News & Trends por

Quando abriu o WhatsApp viu a mensagem: “E aí? Vão fazer alguma coisa no sábado? Vamos comer alguma coisa em casa?”

Era a quarta ou quinta vez que eles eram convidados para encontrar com os amigos.

E a quarta ou quinta vez que não dava certo.

Pior que agora o amigo já sabia que ele tinha visto a mensagem por causa do maldito tique azul.

Não tinha como fugir.

O mínimo que uma pessoa bem educada faria era responder.

Tomou coragem e decidiu aceitar o convite.

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Quando se deixa de ser criança

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A gente deixa de ser criança quando não acha mais espirro engraçado. Nem homem careca (às vezes até vira um). Quando pensa que é a coisa mais normal do mundo a estátua do Cristo estar lá em cima da montanha e que passear no Bondinho é programa de turista. Deixa-se de ser criança por muito pouco.

A criança desaparece – plim – quando os olhos espiam um gramado e não sentem uma vontade incontrolável de procurar tatu bolinha. Quando passa a classificar hamburguer como comida, e não algo divertidíssimo que, se a gente apertar aqui, sai um molho ali, uma alface acolá, até saciar o desejo de sujar todos os dedos das mãos e o redor da boca num tanto que não há guardanapo que dê jeito.

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Debate

em Monocotidiano/News & Trends por

O menino chegou na sala louco pra assistir um desenho antes de dormir. Mas a televisão estava ocupada por senhores de gravata e o sofá ocupado por um senhor de pijamas. Nada feito.

    • Pai, o que você tá assistindo?
    • Chama debate, filho.
    • O que é?
    • São várias pessoas que querem ser presidente.
    • O que é presidente?

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25

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Foi num 12 de outubro. Como era Dia das Crianças, fomos ao cinema ver Pinóquio. Prometemos encher o que um dia seria nossa casa de relógios cuco, nunca deixar o nariz crescer e evitar o estômago de baleias. Dois anos depois estávamos juntos, num dia 2 como hoje. Bodas da cor que vão tomando os cabelos. Muita gente dizendo “nossa, coisa rara, hoje em dia” e o tom não parece muito ser de aprovação. Por isso, todos os buquês e olhares e cuidados parecem pouco. Jantar marcado no restaurante, estamos nos arrumando, dividindo o espelho do banheiro.

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Preciso

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Preciso ir a São José. O tempo aqui é muito apressado. Se eu tivesse ido mais vezes, teria agora 42 anos, no máximo. Longe de São José a vida é atropelo.

Preciso ir porque o céu daqui quase não tem estrela e, quando a Lua cheia nasce, não acorda os galos que cantam, pensando estar nascendo o dia. Porque foi aniversário da madrinha Rosa e eu não pude ir. Porque preciso deixar flores para os meus pais e contar a eles como vão os netos e que aprendi a passar café.

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