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Coluna

De olhos bem abertos

em News & Trends/Portrait por

Esta semana eu recebi um desenho da minha sobrinha de 3 anos e 7 meses. Ela disse:

– Tia Cacá, eu desenhei um caminho para você”!

Aquilo me fez refletir sobre os nossos caminhos. Será que sempre os escolhemos? Será que às vezes a gente não deixa “ a vida nos levar”, como canta Zeca Pagodinho?

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No elevador

em Monocotidiano por

Pai e filha entram no elevador.

A menina se detém na placa.

“É vedado, sob pena de multa, qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social, no acesso aos elevadores deste edifício.”

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Convocação aos devedores de boa vontade

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Essa é uma convocação, uma convocação mundial. Não precisa estar com o passaporte em dia, nem vestir verde e amarelo se for brasileiro, nem azul e vermelho, se francês, inglês ou americano. Não precisa jurar bandeira nem contribuir para o Exército da Salvação. É uma convocação para que todos os parentes, amigos e antigos namorados desse mundo criem vergonha na cara e devolvam os livros emprestados.

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Seis horas e quase escuro

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Da janela, ela olha o outono e diz sentir uma tristeza. Mas não, o outono não é triste. Sua luz que é mais pensativa e bate de lado nas coisas, revelando os contornos. O sol se põe mais lentamente do que no resto do ano, é certo, e as estrelas dão para perder a hora. Tempo das mangas irem dormir e das primeiras mexericas e caquis. Os insetos, tão assanhados no verão, enfim nos dão sossego.

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Sobre pais e mães

em Monocotidiano por

– Tem uma coisa que eu não tô entendendo, viu?

– O que amor?

– Olha só, você me falou que tá de 4 semanas, certo?

– Isso.

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Sala de espera

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Talvez seja o único lugar no mundo onde luz faz barulho. E esse arrepio por dentro, vem do chão sem carpete ou da sem-gracice da decoração? Na parede há uma foto de Paris, talvez para dar aquela esperança ao cidadão de rever Paris. Mesmo que esteja desbotada e não alcance esse objetivo, bem sempre faz.

Há mais duas pessoas na sala. Checam seus celulares, evitam a troca de olhares. Sou do tempo em que esse papel era incumbência das revistas semanais. Eram sempre de meses ou anos atrás, e eu ficava me perguntando qual seria a relação entre cura e revista velha.

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Nasce o senhor

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O que fazia um grilo numa estação de metrô às oito e meia da noite, desafiando os milhares de pés que pisavam ao seu redor? Não pensei nisso na hora, só me dei conta do prenúncio do juízo final depois. O que queria esse frio em março, esse moço com a camisa do Juventus e mochila do Vasco, do que ria a mulher da bilheteria quando me deu o troco?

No entanto, o inocente se arrastava até a plataforma. Já havia batido o recorde municipal de tropeçar pelo caminho; atribuí isso ao cansaço do dia de trabalho. Talvez (me dou conta agora) fosse meu corpo apelando para não ir adiante. Nem me apercebi das nuvens se assanhando com a reunião dos deuses, pedindo cerveja, preparando-se para o espetáculo.

Esperando na plataforma, chequei as mensagens no celular. Bem que podia ter recebido algo como “Pegue um táxi, você está cansado” ou “Fuja, é uma cilada”. Havia um vídeo fofo de um gatinho fofo deixando um bebê fofo dormir em seu pelo fofo. Mal sabia que havia uma pedrada no meio do caminho.

Foi então que houve.

O trem chegou e, antes que ele parasse, deu tempo de pensar no fiasco da não-aparição do cometa Halley em 1986 (por que isso viria à cabeça naquele exato momento, se não pela iminência de outra decepção?). Assim que a porta se abriu, entrei no vagão já cheio e procurei um espaço onde pudesse respirar. Segurei no corrimão que se prendia ao teto. E então – silêncio no estúdio – ao me ver, a moça se levantou de sua cadeira e disse:

– Por favor, senhor, sente-se. E me ofereceu seu lugar.

Em seguida, em perfeita sincronia, o sinal tocou, a porta se fechou num estrondo, alguém gargalhou do outro lado do vagão – de alguma piada que seu colega lhe contara, de algum vídeo no celular, não fofo mas gozadíssimo, ou o grilo entrou em sua calça e fez cócegas na perna?

O fato, senhor, é que o trem andou, senhor, ganhou velocidade, senhor, e pude ver no reflexo da janela o que 55 anos, 5 meses, 2 dias, algumas horas e outros tantos minutos – que me cansei de fazer conta – fazem com um destemperado senhor.

Atordoado, desci duas plataformas depois da minha. Peguei um táxi que apareceu por milagre (hoje estou meio bíblico) e o motorista perguntou:

– Para onde, amigo?

Juro que se ele tivesse dito “senhor”, eu daria uma traulitada na sua cabeça, assumiria o volante do táxi, sairia cantando pneu, esmagaria todos os grilos pelo caminho e formigas na falta deles, furaria todos os sinais vermelhos até invadir aquela nuvem onde santos de bata e auréola, meio bebinhos, já não riam, apenas choravam abraçados, cantando Lupicínio – coisa que muito os emociona.

Por outros motivos

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não para vestir o casaco que eu só usaria em outro hemisfério. Nem porque – ai – acabam de inaugurar mais um shopping. Muito menos porque meia São Paulo vai estar lá. Vou a Campos de Jordão por outros motivos. Os plátanos estão amarelos e forrando as ruas de folhas secas. Porque, quando a tarde cai, nasce o cheiro das lareiras acesas. Porque a boca faz fumaça e o frio, silêncio.

Não porque gosto assim de dropes e pipoca. Vou ao cinema por outros motivos. Não lembrar que atrás daquele beijo apaixonado existe uma câmera, um microfone escondido e um diretor aos gritos é um deles. Sair do cinema se sentindo o galã, imitando os gestos do galã, é outro. Ficar com aquela cena na cabeça e lembrar dela em detalhes 18 anos depois.

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Impressionante

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Caminhava o sujeito pela calçada, esburacada como andam tantas na cidade; quando não é buraco, é o cocô que algum cachorro sem dono deixou pelo caminho. Quando tem dono, este costuma recolher o cocô com um saquinho plástico e jogar no lixo mais próximo. Outros, nem isso fazem: largam o saquinho ali mesmo, um cocô envelopado, esquisito.

Andava depressa para sua idade, devia ter lá seus 70, aprendeu a caminhar no ritmo de São Paulo. Sempre me intrigou essa pressa. Por que as pessoas aqui andam tão rápido? Não é possível que 12 milhões de pessoas estejam atrasadas para seus compromissos.

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Mãe

em Monocotidiano por

A primeira vez que ouviu aquela palavra foi menos mágico do que imaginou.

Nem teve muita certeza de que o bebê tinha mesmo dito mamãe, mas parecia.

Pediu pra falar de novo. Insistiu. Mas nada.

Imaginava que seria diferente. Que estariam sozinhos, brincando na cama, em meio a gargalhadas daquela boca sem dentes, quando, de repente, numa parada para retomar o fôlego, seus olhares se encontrariam, amorosamente, o tempo pararia, o silêncio seria feito instantaneamente e só seria quebrado pelo som evidente de um “mamá”, bem pronunciado.

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Curtinhas

em Monocotidiano/News & Trends por

– Chega, Roberto. Não aguento mais. Você já tem 40 anos e ainda fica escutando tudo que sua mãe diz!

– Eu não concordo com você. Mas minha mãe acha melhor eu não falar nada, pra evitar uma briga maior.

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