-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

Category archive

Cássio Zanatta

O sinal

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Da janela Tom via o Corcovado e o Redentor. Eu, menos sortudo, vejo o sinal de trânsito. Não fica exatamente na esquina de casa, mas bem adiante, a umas cinco quadras, num espaço estreito do meu ponto de vista, no preciso intervalo entre as copas de duas árvores, um telhado e dois prédios. Posso passar um bom tempo acompanhando seu trabalho e bem faz o leitor se não quiser me acompanhar em tema tão maçante.

Continue lendo

Você me traiu

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Como pôde? Diga, como pôde fazer isso comigo? Vinte e um anos juntos, no maior respeito, e agora essa decepção, essa raiva que me roubou o chão, a revolta de não poder voltar atrás e apagar tudo o que fomos. Traidor. Cretino. Canalha, a palavra mais levinha que me ocorre.

 

A gota d’água não foi carta anônima, flagrante de mensagens no celular, nada disso. Na verdade, o mundo não desmoronou num segundo, veio ruindo aos poucos, uma trinca ali, um abalo mais adiante, alguns pedaços nem percebi, cega de tudo, ou fiz vista grossa.
Primeiro, você ficou careca. Como pôde? Aquela cabeleira toda, mexendo com o vento, balançando no futebol, tudo enganação. Uma isca que eu mordi, boba de tudo. Agora esse buraco no alto, uma clareira que faz lembrar a devastação amazônica, look de monge franciscano. Monge sem fé nem piedade. Sempre assim: você resolve as coisas e nem me consulta.
E aquela magreza toda, o pescoço enxuto, os músculos do braço que eu tanto gostava que me apertassem, onde? De impressionar, hoje, só a barriga que nos afasta cada vez mais na dança, no abraço, no amor. Um muro que cresce para a frente, uma proibição concreta. Quantos quilos a mais? Quinze? Vinte? E por que não me contou que seria assim, que era esse o plano desde o início? Eu devia ter desconfiado da sua paixão, quase obsessão, por goiabada. De quando você ficou com 2/3 da barra de chocolate.
E todas as vezes que me ignorou, olhos fixos num copo de cerveja, na prosa com amigos. Amigos. Humpf. Comparsas, isso sim. Capangas a serviço do seu plano maligno, tudo bem traçado entre um salame e uma batucada na mesa do boteco que ficava debaixo da foto do Papa. Só eu não quis ver.
Que tolinha, meu Deus. Lembro até a vez a noite em que você estava em casa, vendo futebol e, quando cheguei, você trocou de canal para eu assistir ao Vale a Pena Ver de Novo. E ainda foi buscar para mim um copo de Fanta uva. Todo fofo. Todo compreensivo. Tudo fingimento.
Você me trocou. Trocou meu sono bom por uma sinfonia de roncos e apneias. Me deixou o menor pedaço da cama. Os vasos de flores por uma coleção de revistas Placar. Nem meu nome diz mais: é só um “benhê” cafona, vai ver esqueceu qual é. O nome que você jurou para o padre.
Aí você me vota nele. Nele! Ah, não, aí foi demais. Depois de anos daquela conversinha de defender a liberdade, lutar pelos direitos, que bastava vontade política, agora vira reaça de discutir com a moça do Greenpeace na entrada do metrô. Deu.
Vou passar o domingo fora de casa. Talvez resolva visitar meus pais. Sim, eles ainda estão vivos, caso você não se lembre. Aproveite para vir buscar suas coisas. Está tudo no armário como você deixou, a zona que você deixou. Leve tudo. Tudo. Inclusive a camisa do Botafogo. Principalmente a camisa do Botafogo.

Continue lendo

Universo Paralelo

em Cássio Zanatta/Mundo/News & Trends por

Não sei se alguém já contou a você, mas sou um gênio. Sou, ué. Se alguém me perguntar como tenho certeza disso, direi que Michelangelo, Mozart ou Pelé tampouco o sabiam, é algo que nasce com a gente, difícil explicar. Feita esta modesta apresentação, reconheço que não faço a menor, a mínima, a mais remota ideia do que seja Universo Paralelo. Pedem minha explicação, mas minha sabedoria não alcança essas alturas.

Continue lendo

Uma mancha na reputação

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Minha camisa nova ganhou uma mancha de café. Minhas camisas velhas já têm cada uma sua mancha de café (quando não têm duas). Minha camisa tem sempre uma mancha de café, até no dia em que eu não tomo café.

Já me acostumei. Diante de alguém, vejo enquanto conversamos seus olhos se desviarem dos meus para a mancha e da mancha para meus olhos, como se perguntassem como foi que aquilo surgiu. Muito bem, eu não faço a mais remota ideia. Ou melhor, faço: as manchas me perseguem. Quando me veem passando na calçada, elas saltam das janelas, pulam dos galhos, se jogam dos telhados, só sossegando quando estiverem bem acomodadas na minha camisa.

Continue lendo

A Terra é cinza

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– A Terra é verde!

Revelou ao mundo Yuri Gagarin, há quase 50 anos. Foi um espanto no centro espacial russo, que a gente não lembra o nome porque o que ficou para a história foi o da NASA, em virtude do colapso da União Soviética. O tempo todo, notícias chegavam por ETs, incas venusianos e astronautas de outros mundos que garantiam que nosso planeta era azul.

Mas o homem disse do espaço, ao vivo e em cores, pausadamente e coberto de certezas: verde. Quando chegaram as primeiras imagens vindas do espaço, foi a confusão universal: o planeta aparecia azulzinho da silva, como o céu, alguns mares de areias brancas e a bandeira da Portela. Um cientista fora convocado para interrogar a mãe do astronauta:

– Madame Gagarin, seu filho faz confusões com cores?

Continue lendo

Bouchonné

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Não está bom.

E devolveu com uma careta a taça sob a mesa. O garçom, atônito, congelado com a garrafa na mão:

– C-como?

Sem se alterar, o homem diz:

– Está alterado. Bouchonné.

Continue lendo

O cronista alienado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Ah, tenha dó: é atentado a bomba no metrô de Madrid, sequestro de avião em Moscou, tiroteio em hospital no centro de Bagdá… Nem precisa ir tão longe: aqui mesmo, um garoto entrou na sua escola e matou oito colegas. A tiros de espingarda, golpes de martelo e facadas. Enquanto ria. Me diga: como é que em meio a isso alguém pode escrever sobre ondas, conchas e ventos?

Continue lendo

O menino, o velho e o mar

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Para Zilda Maria da Silva (Dona Nega)

André contou sua história de menino. Teve quem chorou, teve quem duvidou.

André é de Recife. “Do Recife”, como ele diz. Cresceu nas areias da Praia do Janga, de manhã a correr descalço, catando concha, tomando vento, mergulhando nas ondas verdes e bravas; de noite, a aprender com os adultos as danças nas rodas de coco nas noites de lua.

Continue lendo

Aqui se faz

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O preço a pagar pelas coisas anda alto demais. Dizem os entendidos que é a inflação. Mas nossa carência também sofre de carestia?

Alguns dias de férias custam 11 meses de sangue. O coração pode ter que pagar pelo excesso de sustos, cigarro e torresmo. O preço de se apaixonar pode ser um desasossego sem fim. A vergonha onerou o desatino.

Tenho a impressão de estar pagando excesso de culpa, não era para tanto. Caro demais pelos pecados, mereço um desconto por certa gagazice. Mas quando já acho muito, vem alguém e ainda remarca na calada da noite.

Continue lendo

Badalando

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco horas da madrugada, dizem as badaladas do sino da Matriz. Então acontece do cidadão abrir o olho, tão somente um, e se perguntar: espera aí, bateu cinco ou seis horas? O vento levou o som de um ou outro toque e dificultou o entendimento. Ainda está escuro. Mas como é inverno, seis da manhã costuma ainda ser noite. E agora? Continuar sonhando ou pegar o caminho da roça? Voltar a me enfiar nas cobertas ou lavar o rosto com a água gelada de doer que sai da torneira nessa época?

Continue lendo

Onde mora o sabiá

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco da manhã, o dia nem nasceu e um sabiá desandou a cantar nas redondezas.

Pronto. Cronista deve ter fixação por sabiá. Vira e mexe, catapimba: lá vem o bicho na história. Por que sabiá e não tico-tico? Ou gambá, muriçoca? Discriminação pura. Fora que vira tudo pastiche do velho Braga. É muito descaramento. Mas o que eu vou fazer se na verdade um sabiá desandou a cantar, ué?

Continue lendo

Vai fazer frio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estão prevendo muito frio para o fim de semana. Mínima de 6 graus, chuva, ventos e o escambau. Preciso checar minha provisão de porto, conhaque, meias grossas, livros e se meu cachecol não está com cheiro de mofo.

Continue lendo

1 2 3 13
Voltar p/ Capa