Como a China controla os exilados tibetanos

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Todos os telefones começaram a tocar ao mesmo tempo, ela se lembra. Eram chamadas de mais ou menos 20 pessoas em uma sala em San Francisco. O lugar entrou em erupção. “Alô? Alô?” Vozes estranhas vieram em seguida de alguns dos telefones. Após perceber que o sotaque daqueles homens era chinês, então, ouviu-se o som horripilante de gritos.

“Soou como se aquelas pessoas estivessem sendo torturadas”, lembra Lhadon Tethong, um líder ativista pela independência tibetana. Ela finalmente percebeu que os gritos eram falsos, os quais podiam ser gravações de um filme de terror. Mas para as pessoas mais velhas da sala naquele dia, em 2008, em San Francisco, as pessoas com memórias pessoais da repressão brutal da China no Tibete, esses gritos eram uma lembrança angustiante que não importa o quão longe eles se afastaram, podendo afetar suas vidas, mesmo vivendo nos Estados Unidos.

“Eles são muito agressivos”, diz I.C. Smith, um especialista aposentado do FBI da China. “Pequim persegue os tibetanos e outros grupos dissidentes aqui”.

O destino dos seis milhões de pessoas do Tibete, dispersas pela área seca da Ásia Central do tamanho do Texas e do Alasca combinados, parecem não merecer muita atenção. No entanto, como foi demonstrado mais uma vez recentemente, quando o presidente Obama se aproximou de Pequim, acolhendo o Dalai Lama na Casa Branca, o Tibete, nominalmente uma província autônoma chinesa, continua a ser uma parte importante do cálculo da Ásia Oriental em Washington.

Como parte da aproximação EUA-China, em 1972, o presidente Richard Nixon puxou a ficha sobre a resistência armada, mas o Departamento de Estado continuou a apoiar o Dalai Lama e seu governo, que fugiu para o exílio em 1959. A China ainda tem que integrar plenamente o Tibete em seu sistema, e sua diáspora, com sede na Índia, mas espalhada por todo o mundo.

No incidente de 2008, quando os tibetanos se reuniram em San Francisco para protestar contra tochas olímpicas dos Jogos de Pequim, Tethong, 37 anos, filha de um ex-ministro das Relações Exteriores diz à Newsweek que “os telefones foram bloqueados por cerca de três dias, quando mais precisávamos deles”. Ela e outros “sabiam” que os ataques vinham da China, mas só depois de uma parceria com o Lab Citizen da Universidade de Toronto, que monitora ataques de hackers, foi capaz de confirmar suas suspeitas.

“O que estamos trabalhando na tentativa de levar as pessoas a reconhecer é que o celular em seu bolso é a ferramenta de vigilância perfeita”, diz Tethong. “Você o carrega para qualquer lugar. Os hackers não só podem colher os seus arquivos, contatos e rastrear seus movimentos, como também podem ativar o seu microfone e câmera”.

“Um grupo de alto nível do Tibete, durante a sua reunião de diretoria anual há um ano, usava um laptop sobre a mesa para uma apresentação”, conta Tethong. “Alguém notou que a luz da câmera estava ligada. Isso é uma das coisas que temos visto ultimamente no mundo do malware: a capacidade de ligar e desligar câmeras”.

Com essas ferramentas, a intimidação física parece desnecessária, mas os agentes chineses aparecem frequentemente em eventos de exilados para tirar fotos de ativistas. “Outros se dizem ser jornalistas para obter detalhes sobre os manifestantes”, diz Tethong.  As agentes femininas, neste caso, são enviadas para seduzir ativistas masculinos.

Gabriel Feinstein, 24 anos, foi atraído para a causa do Tibete após ficar interessado no budismo quando era estudante de um colégio interno em Utah. Agora ele é um membro do Congresso Nacional Tibetano, um dos cerca de 200 grupos de apoio ao exílio em todo o mundo. “Todos os anos, desde 2009, quando eu organizava os protestos em frente ao consulado chinês em Chicago, as autoridades consulares chinesas tiravam fotos de vigilância e filmavam os manifestantes. Foi uma ocorrência comum em Chicago ter veículos conduzidos pelos manifestantes em carros que tinham placas diplomáticas, os quais eram claramente de ascendência chinesa”, explica Feinstein.

Toda vez que há uma reunião considerável de exilados, os homens de aparência chinesa apareciam para tirar suas fotos. Em 2012, em um protesto em Nova York, Feinstein notou um homem que parecia ser sem-teto usando “uma câmera Canon cara” para tirar fotos de manifestantes, e que os seguiu por toda a Times Square. Uma fonte depois, disse a Feinstein que o tal homem estava sendo pago pela missão diplomática chinesa em Nova York.

Da mesma forma, ao visitar um amigo em Toronto em 2012, Feinstein disse ter sido “seguido por dois cidadãos chineses em toda a cidade, do meu quarto de hotel até o caminho para o aeroporto”.

Procurada pela Newsweek, a embaixada da China em Washington disse não estar ciente dos relatos de assédio.

Já o FBI não quis comentar.

Os líderes do exílio esperam um aumento na vigilância nos próximos dias para os eventos que marcam o 55 º aniversário do levante contra o domínio chinês no mês de março. “Há marchas, vigílias – é um dia de grande reunião para a comunidade de exilados tibetanos”, diz Tethong.

E um grande dia para a China, uma vez que seus vigilantes também estarão lá.

© 2014, Newsweek.

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