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Friday, April 10, 2020
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Como todo Natal

Família grande é a tal coisa. No Natal, isso fica ainda mais claro, deve ser de tanta luzinha que pisca…

By Redação , in Cássio Zanatta News & Trends São Paulo , at 24/12/2019 Tags:

Família grande é a tal coisa. No Natal, isso fica ainda mais claro, deve ser de tanta luzinha que pisca nas salas, lojas e árvores.

Todo ano morre alguém e, no entanto, a família só faz crescer. A gente nem lembra mais quem é filho de quem. A cada ano, fico mais parecido com aquela tia velha que interrompia nossa correria de criança e perguntava, apertando as bochechas: “Você é filho de quem, meu bem?”

Tem sempre um adulto que conta uma piada antiga (e inapropriada para o dia), aquele outro que cutuca as azeitonas da farofa antes da hora (e na ceia dispensa misteriosamente a farofa), e aquela confusão que interrompe a troca de amigo secreto umas três vezes.

A magia do Natal consiste no fato de que, por mais que tenham comprado roupas novas para a festa, todos se vestem igualzinho ao ano passado, que por sinal era do mesmo jeito do ano retrasado. Um mistério, mesmo. Como todo Natal, algo de vidro vai se quebrar: dois vasos, quatro taças, a cristaleira ou um porta-retratos. Dizem que alivia o ambiente, atrai tudo de ruim que podia acontecer. O que quase aconteceu foi a dona da casa ter um piripaque de susto.

As meninas continuarão lindas e arrumadas até o fim da noite; já os moleques acabarão de camisa pra fora, faltando dois botões, com um só sapato e com fios de ovos até no bolso.

O amigo do primo certamente chegará umas sete da noite, vestido de Papai Noel, o mais magro e fajuto de todos, e beijará a família, que ainda nem começou a se aprontar, com o maior bafo daquela água que rena não bebe. O de verdade ainda está longe, entregando presentes em Joanesburgo, mas não demora. Seu cão não vai latir para as renas voadoras, e você podia jurar que tinha um segurança confiável.

É provável que alguém tropece na árvore e derrube duas bolas, que vão se espatifar no chão feito ovos de metal. Um tio vai ganhar de presente uma máquina fotográfica moderníssima que jamais será usada. A vó vai pedir silêncio porque vai começar o Especial do Roberto Carlos – e vai dormir de roncar no vigésimo minuto. Duas tias vão se desentender feio e ficar 12 anos sem se falar.

Uma visita indesejada pode aparecer, e não é por ser Natal que será bem-vinda. Por mais nublada que esteja a noite, uma estrela vai vencer. Alguém vai criticar e outro, defender, a presença de frutas cristalizadas no panetone. Uma criança espiará o céu pela janela e virá correndo contar que viu o trenó entrar pela janela do prédio em frente.

Os últimos Natais em nada lembraram o de 2007. Alguns personagens importantes faltaram, as rabanadas estão mais saudáveis, com menos manteiga e açúcar (portanto, piores), não houve reza, não houve canto, ninguém chorou, onde já se viu Natal sem choro? De melhor, só o fato das duas tias voltarem a se falar.

Todo Natal é igual. Os ritos, embrulhos e cardápios são os mesmos. Diferente é a pausa, quase a paz, esse estranho e inexplicável silêncio.

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