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Tuesday, July 14, 2020
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Comunicados

Já tinha tentado de tudo. Chás, remédios para insônia, músicas relaxantes, yoga, respirações ritmadas, mas nada fazia efeito. Toda vez…

By Diogo Mono , in Monocotidiano News & Trends , at 29/11/2016

Já tinha tentado de tudo. Chás, remédios para insônia, músicas relaxantes, yoga, respirações ritmadas, mas nada fazia efeito.

Toda vez que colocava a cabeça no travesseiro aquela frase girava pelo seu cérebro, era grafitada na sua pálpebra, projetada no céu do quarto e até tatuada na testa da sua mulher: “Favor não urinar sobre a tampa do vaso”.

Foi assim, estava trabalhando tranquilamente numa quinta-feira quando resolveu ir ao banheiro. Abriu o intimidador box número 2 e estava lá o cartaz, impresso numa dessas impressoras já meio sem tinta do escritório: “Favor não urinar sobre a tampa do vaso”.

Leu aquilo e não sabia se perdia a vontade de ir no banheiro, se fazia nas calças ou se limpava com o cartaz. As palavras “sobre a tampa do vaso” estavam em um vermelho meio desbotado. A folha já começava a se enrugar com a mistura de umidade e coliformes. Mas o que mais dava nojo era a frase: “Favor não urinar sobre a tampa do vaso”.

Voltou para casa naquele dia com a frase na cabeça. Não o sentido, as palavras, conjunções, verbos, nada disso. Mas a ideia de escrever aquilo.

Andou pelas ruas pensando onde tínhamos errado. Por que precisávamos de uma placa tão óbvia no banheiro dizendo o que todo mundo já sabe? Ou não sabe? Alguém tem dúvida de que é “Favor não urinar sobre a tampa do vaso”?

Desde aquele dia não consegue dormir. Não consegue parar de pensar que há algo mais podre nos seres humanos do que a gente imagina.

Se é necessária a existência de um recado desse, não há necessidade de esperança. Fechemos tudo. As fábricas, as ruas, as casas, as lojas, pensava. Vamos sentar, olhando para essa placa até todos nós entendermos a nossa falência como espécie.

Vamos definhar em frente a essa pérola do auto-conhecimento, digitada porcamente, impressa porcamente, colada na parede porcamente, para impedir que ajamos porcamente.

Vamos aceitar que não servimos para viver em grupo. Que falhamos. Que somos uma mentira. Que a ideia de sermos os únicos animais capazes de pensar e criar uma estrutura complexa de relacionamentos é uma armadilha. Nos subiu à cabeça e nossa queda vertiginosa foi direto para dentro de um vaso sanitário.

O fracasso da raça humana caiu sobre ele de forma pesada.

Mas seguia se arrastando. Tentando se convencer de que era apenas um leve erro. Uma falha. De um humano qualquer. Que digitou por engano, sem pensar nas consequências. Era isso. Um puxa-saco que achou que seria inteligente colocar aquilo naquele lugar. Puxa-sacos, sim, são uma vergonha para a raça humana. Começou a se reerguer. Aquela placa era uma aberração. Não era comum. Não era a humanidade que estava no lugar errado. Era a placa. Era a placa! Levantou da cama, tomou banho, fez a barba. Ia arrancar a placa de lá e a ordem seria reestabelecida. A humanidade voltaria à ser formada por pessoas que chegaram à lua, que descobriram a cura para doenças fatais, que criaram a internet, que escreveram os lusíadas, que inventaram as músicas mais espetaculares do mundo. A humanidade que luta por igualdade, que faz a gente se orgulhar, que inventou a escola de princesas, vá lá, mas que fez tanta coisa boa! Era dessa humanidade que ele fazia parte. E era em nome dela que iria arrancar aquele recado idiota.

Pegou o elevador decidido.

Despretensiosamente resolveu ler o comunicado do síndico: “Pedimos que não joguem objetos, lixo ou caixas de pizza pela janela dos apartamentos”.

Foi demais para ele.

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