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Saturday, August 8, 2020
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Crônica do cronista

Crônica do cronista Acontece sempre. Sento para escrever esse texto e ela pergunta. – Vai escrever seu texto? – Vou……

By Redação , in Coluna , at 10/08/2015

MONO

Crônica do cronista

Acontece sempre. Sento para escrever esse texto e ela pergunta.
– Vai escrever seu texto?
– Vou…
– Sobre o que?
– Ainda não sei. (É, na maior parte das vezes só descubro na hora)
– Nossa, eu nunca conseguiria fazer isso. Esse negócio que você faz é muito difícil.
Ah, minha querida, não fale uma coisa dessas.Você me faz pensar na pequenez do que estou fazendo.
Eu não preciso encontrar uma pessoa ensanguentada, inconsciente, precisando de um cirurgia emergencial, enquanto a família chora desesperada do lado de fora. E pior, descobrir que, ao fazer uma incisão no seu corpo os órgãos são, veja você, todos da mesma cor vermelho sangue. Bem diferentes dos órgãos multicoloridos dos livros da escola. Não, não, nada disso.
Eu não preciso encarar uma turma de alunos desconfiados, loucos pra me arrumar um apelido vexatório, atingir meus pontos fracos ou gargalhar a cada pequeno deslize. Isso também não.
Não sou responsável por uma obra que, por um mínimo erro de cálculo, pode colocar em risco a vida de milhares de pessoas. Ufa, não estou nessa também.
Também não tenho a responsabilidade de salvar pessoas que estão se afogando, presas em um incêndio e nem mesmo gatinhos que não sabem descer de árvores. Não tenho os olhares críticos de especialistas e pessoas que se julgam especialistas, avaliando meu trabalho a cada prato servido. Não atendo telefonemas desesperados de pessoas com problemas e as ajudo a reerguer sua auto-estima. Não mudo os rumos da política, da economia, da lucratividade dos bancos, aumentando e diminuindo crises, alimentando ou não o pessimismo. Não, não, não e não.
Eu queria que fosse mesmo assim, nobre, difícil, sofrido, algo digno de inveja. Eu escrevo sobre coisas que, talvez, façam sentido pra alguém, alegrem outros e até crie algum ódio em alguns. Mas o máximo que pode acontecer é um email desaforado de quem se sentiu ofendido. Não tenho vidas nas mãos, futuros em jogo, julgamentos nem sempre justos. O que eu tenho é a expectativa de que, quem lê o que faço, possa se sentir melhor.se isso acontecer, vou ficar orgulhoso. Não tanto quanto quem salvou a vida do ensanguentado ali em cima. Mas como quem salvou os minutos de alguém que doou seu tempo pra ler minhas palavras.

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Diogo Mono. Redator publicitário, tenta ser escritor, será pai de família e continua sendo um observador das coisas do cotidiano. © 2014

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