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Cultura e Desenvolvimento: apontamentos para a discussão

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Cultura e Desenvolvimento: apontamentos para a discussão

Marcelo Leandro Adifa

Passadas as eleições municipais, temos condições de fazer uma leitura quanto à compreensão dos governantes eleitos nas principais cidades do Brasil em relação ao desenvolvimento cultural e dos programas para o segmento em seus municípios. Excetuando Sorocaba, Curitiba e São Paulo, os prefeitos eleitos nas grandes cidades pouco ou nada apresentaram de novidades. Erro comum é pensar a cultura desconectada das demais pastas, ou meramente como elemento recreativo ou de entretenimento. Acerta quem visualiza a cultura como um retrato fiel do estrato a ser comandando; síntese de uma determinada parcela da população e aglutinadora dos seus sinais e manifestações mais evidentes. Como expressão artística sim, mas também social de um povo e elemento componente da alma de suas cidades. Para tanto é preciso romper com as amarras do baixo investimento e da mítica de ser sempre o primeiro setor afetado pela tesoura cruel que vem atrelada ao orçamento. Cultura é investimento, não gasto sem retorno.

Os investimentos em cultura não precisam ser diretos, provenientes da pasta em si, podem ser obtidos a partir da realização de projetos e programas de outras pastas, como a educação ou desenvolvimento social. Ações culturais devem sair do eixo de grandes atividades e pequenas produções devem ser privilegiadas. A cultura de base pode ser trabalhada na escola. Primeiro há de se ter uma leitura do universo a ser atingido em cada escola ou bairro: de onde vieram seus estudantes ou moradores? Qual a relação que ainda mantém com seu local de origem? Assim podem ser realizadas, ainda no âmbito da escola ou da comunidade, o resgate de elementos culturais daquelas populações. Aí, de elemento de entretenimento, a partir da dança, do teatro ou de congêneres, a cultura adquire uma importante face de valorização, resgate, conhecimento e autoestima da comunidade. Conhecer-se é respeitar-se. As atividades culturais transitariam livremente em um espectro associativo ao esporte, educação e juventude.

Não são as grandes atividades que merecem incentivos e investimentos do poder público. Essas acontecerão de qualquer forma, alicerçadas pelo mercado. E embora o fazer artístico, sempre associado à resistência, aconteça com ou sem o apoio do poder público, é a atividade de base que deve sofrer anteparo ostensivo; com recursos e acompanhamento para os pequenos coletivos e a formação de público e novos artistas. Acredito, inclusive, que todas as administrações municipais deveriam manter, atrelado à Secretaria de Cultura, um setor específico para instruir artistas a adequarem seus projetos à editais públicos ou privados. Muitas vezes o artista tem a ideia em mente, mas não compreende o jogo burocrático que paralisa o sistema.

No campo do patrimônio histórico faz-se importante gerar parcerias para a recuperação de prédios e outros espaços. Investimentos privados não devem ser descartados, seja por meio de incentivos fiscais ou aportes diretos com a compensação por meio da exploração de bilheterias pós restauro. O purismo de alguns, que sempre refutaram a administração terceirizada desses bens, deve ser colocado de lado para o benefício de todos.

Se por um lado, há de se valorizar a cultura de base, com aporte em cursos, festivais e a prática do ensinar e fazer arte e cultura, por outro, a criatividade está a serviço da indústria do entretenimento e toda sua cadeia produtiva e pode, a exemplo do que pretendem os prefeitos eleitos de Sorocaba e São Paulo, gerar empregos e renda com a implantação e suporte de negócios voltados à literatura (gráficas, estúdios de criação e ilustrações, etc); música e cinema (estúdios de gravação e edição, etc) e tantas outras possibilidades.

Por fim, o fomento deve ser prioridade e estratégia de gestão cultural. Precisamos tanto de novos artistas quanto de público. A cultura popular e a erudita, igualmente abandonadas nas últimas décadas, em detrimento do entretenimento, devem ser retomadas, com a implementação de programas de incentivos à dança, teatro, música e literatura nos bairros, escolas e fundações culturais. Espaços públicos devem se tornar polos permanentes de produção e divulgação cultural. Cada praça ou escola deve se transformar num festival permanente de artes à cada final de semana. Deve-se fazer algo que poucos prefeitos e secretários têm habilidade em implementar: o diálogo permanente com a comunidade artística, compreendendo suas diferenças a particularidades, dando igual atenção para cada mecanismo de produção e divulgação.

Esses são apenas alguns apontamentos, porém, universais, para uma gestão inclusiva e participativa no segmento cultural.

Marcelo Leandro Adifa – Poeta e Escritor; autor de Exílio e A Quem Se Fizer Estrela, entre outros. Jornalista e Engenheiro, é especialista em Planejamento e Desenvolvimento Cultural.

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