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Destravadas

Destravadas “Depois que destravaram o cérebro das mulheres, deixando-as pensar como ser humano, nós homens ficamos completamente perdidos.” Citação do…

By Redação , in Coluna , at 23/05/2016

Marco

Destravadas

“Depois que destravaram o cérebro das mulheres, deixando-as pensar como ser humano, nós homens ficamos completamente perdidos.” Citação do meu amigo Fernando Campos, que é o homem mais jovem que conheço. Depois de uns cinqüenta e poucos anos vividos, uns 5 ou 6 filhos, uns 3 ou 4 casamentos e formidável sucesso profissional num ramo que lida com as estruturas do pensamento humano, acredito que ele sabe mesmo o que fala. E depois ainda complementa: “Sei lá, por milênios mantiveram uma pecinha ali, travando seu raciocínio. Mas agora já foi, ela não mais está lá, fazendo assim com que virassem as donas do mundo.”

Então leitores, vou evidenciar este destravamento em quatro atos. Relatos de um pai sobre sua filha de nove anos e meio. Família moderna, ele não faz casal com a mãe dela. Ele mora na capital, elas no interior.

Ato 1.

Era uma manhã de Sábado em Dezembro. O pai chega na casa dos avós depois de duas semanas de viagem. A filha brinca com algumas amigas no jardim. Logo ao cumprimentá-lo, ela dispara:

– Quero mudar de escola. Posso mudar de escola?

Claramente aquele não era o fórum para esse tipo de discussão. Então o pai pede a filha que falem mais tarde sobre esse assunto.
Depois do almoço ela retoma, convidando o pai para conversar na mesa da sala:

– E aí?

Evidentemente ele quer saber as razões por traz daquela firme decisão. Eis a reflexão da filha:

– Estou na mesma escola desde o início dos estudos. Antes mesmo de eu saber a falar já estava lá. Agora, não quero morar por toda a vida neste cidade. Então quando eu for estudar em outro lugar, já quero ter a experiência de adaptação em outras escolas. E se decidirmos que vou morar com você, então? Como fico? Vai ser cidade que nunca morei, amigos que nunca tive, escola que nunca vi… muito mais inteligente já ter passado por essa experiência antes.

Resultado: o pai teve que comprar novos uniformes.

Ato 2.

Meses depois, num final de tarde de uma Quinta-Feira, o pai pega a filha no novo colégio. No banco de traz do carro ela, indaga:

– Pai, o que é esse negócio de “linda e recatada” que as pessoas estão falando?

O pai explica toda a situação da primeira dama em exercício:

– Então filha, a revista Veja fez uma reportagem sobre a Marcela Temer. Acredito que foi um tom de provocação às mulheres de esquerda da sociedade, aquelas que normalmente tomam partido da presidenta, que estava num balança mas não cai no governo. Então a revista classificou a Marcela Temer “linda, recatada e do lar”. Ela é bem mais jovem que o presidente, muito bonita e declarou que prefere não opinar sobre política, optando por ficar em casa cuidando do filho. Daí classificaram a reportagem antiquada porque isso era modelo de comportamento feminino na época da sua bisavó.

A filha eleva lentamente o tronco para frente, balança a cabeça e dispara olhando fixamente para os olhos do pai que se encontram no retrovisor do carro:

– Mas pai, as mulheres não tem o direito de escolherem a vida que cada uma quer levar??

Bingo!!

Ato 3.

Mais alguns meses se passaram. Uma prima do pai vai se casar e as festividades serão em uma cidade distante de onde reside a filha. Sendo assim, seria necessária a ausência da filha na nova escola na Sexta-Feira pré-casamento, caso se decidisse pelo comparecimento desta. A filha liga no celular do pai no início daquela semana. Depois dos comprimentos iniciais ela comenta:

– Pai, quero ir no casamento. Mas se você achar que eu não devo ir por causa da escola, tudo bem.

– Veja, filha. Matar aula não pode acontecer jamais! A gente precisa se esforçar e levar as obrigações a sério sempre. E festa não é motivo de faltar a aula.

– Tá certo pai. Mas e se fosse você que estivesse casando? Eu poderia matar a aula?

Silêncio de quinze segundos. Daí ela continua:

– Olha o que estou pensando. Hoje a tarde eu tenho aula com as mesmas professoras que dão aula na Sexta-Feira. Posso pedir a elas que me falem o que teremos de matéria na Sexta para que eu me antecipe, já estude, e possa ir no casamento. O que você me diz?

– Eu te digo para escolher um vestido bem bonito para o final de semana.

Ato 4.

Na sala de televisão, enquanto o pai conversa com um amigo, a filha desenha sentada no tapete. Aparentemente distraída com seus lápis e folhas sulfites ela escuta o amigo do pai comentar que o filho já tem quase três anos de idade e ainda não desenvolveu a fala. Argumenta que não gostaria de matricular o garoto na escolinha nesta situação, acreditando que a mesma possa inibi-lo ainda mais. O pai escuta com ar contemplativo o relato do amigo até que a filha se levanta e, enquanto direciona o papel colorido aos olhares do pai, ela lança o seguinte:

– Talvez ele ainda não fala, mas o mais importante é que ele pense. Escola existe é para isso: ensinar a criança a pensar.

Fim.

Inacreditável. Relatei esses eventos a uma amiga de infância. Ela me indagou se na época que tínhamos a idade da filha, também já não éramos pensantes desta maneira. Por alguns segundos me senti velho-coruja. Mas daí lembrei do Fernando Campos e o fato de que eu pessoalmente precisava de ajuda até para amarrar o cadarço dos tênis nesta idade. Cheguei a evidente conclusão de que essa minha amiga também já tinha o cérebro “destravado” aos nove anos e meio. Caso concluído. Acostumemos. Estamos definitivamente fadados a cumprirmos os desejos e seguirmos os comandos delas. Boa sorte para a gente. Iremos precisar.

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Marco Antônio Guile escritor mineiro que retrata em crônicas fictícias, as incontroláveis sensações que acompanham descompassos cardíacos nos homens. Qualquer semelhança com histórias reais é mera coincidência… © 2014.

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