Dia de Reis

em Cássio Zanatta/Geral/News & Trends por

 Olha: agora você é o pai. Você, que sempre foi o filho – desde que reparou que, ao lado da mãe, havia um sujeito que sempre estava por ali e parecia gostar de você, e que foi ganhando importância a ponto de virar quase uma metade da mãe.

     Aos poucos, essa figura, que se revelou um homem que o seu corpo foi aprendendo a imitar, lhe ensinou a ser e ver o que importa. A definir o seu jeito, seus contornos meio desiguais, enquanto lentamente compunha um livro que um dia lhe seria entregue.

     Então o mundo se virou para você, anteviu uma capacidade que lhe era desconhecida e olhou-o pai. Deram-lhe um trono, coroaram sua cabeça de rosas e espinhos, perfumes e abelhas, e lhe obrigaram a operar a miopia, ou você não seria capaz de achar seus filhos a três metros de distância.

     Quer dizer que você é capaz de gostar de alguém mais do que de você mesmo. Faz coisas ridículas, como dançar diante de um desenho na TV ou rastejar no chão, tudo em troca de fazer sorrir ou faiscar um olho. Redescobre o sofrimento das provas e como dói ralar o joelho. É capaz de rezar para ser o único gripado em casa.

     E desde esse dia, subir em cachoeira ou fazer a mala, mandar o chefe plantar batatas, xingar o navalha que lhe deu uma fechada ou pedir mais um negroni, nenhum movimento seu acontece sem antes passar por esse lugar.

     Espero estar honrando o cetro que herdei. Com o tempo percebi que o tal livro lembra mais uma Constituição de poucos artigos, com mais intenções que instruções. Assim, mesmo errando um bom tanto, os acertos são comemorados. Disfarçadamente, para não dar bandeira – afinal, você é o pai – Pai, já é tempo das maiúsculas.

     Se fosse dado a mim reescrever os capítulos, eu acrescentaria que, embora eles tenham nascido de você, seu filho e sua filha não são você, nem pertencem a você. Isso evitaria alguns constrangimentos, discussões à mesa e coisas que os filhos fazem escondidos quando não deviam.

     Mas algo o livro não dizia: quanta coisa o pai que você se tornou ia imitar o seu. Como uma continuação dele, com suas verrugas, risadas e assobios. Em algumas coisas você é melhor (em dirigir e não ser tão preocupado), em outras, pior (na teimosia e lentidão), e em outras (na inutilidade em consertar as coisas da casa, nos pigarros e motivos pelos quais achar graça), você é tal que nem. Serei capaz de reconhecer algum pedaço de mim espelhado nos meus?

     Então agora o pai sou eu, a vida me ordena. Aceito a condição e faço o possível para me sair bem. O impossível também. Que meus filhos entendam, perdoem e me considerem, no fim das contas, um bom pai. 

     Hoje, Dia de Reis, sinto-me um pouco rei, um pouco mago. Mas de presente trago não ouro, incenso ou mirra, e sim um punhado de balas 7 Belo, foi o que eu encontrei no caminho guiado pela estrela.

     Pronto. Já estou ficando manteigão. Isso, também sei de quem herdei. Eta vida.

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