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Wednesday, July 15, 2020
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Duas pessoas civilizadas

– Mauro. – Carla. Não é que você veio mesmo? – Desculpa o atraso. Esse trânsito. – Senta aqui. Não,…

By Redação , in Cássio Zanatta News & Trends , at 04/02/2020 Tags:

– Mauro.

– Carla. Não é que você veio mesmo?

– Desculpa o atraso. Esse trânsito.

– Senta aqui. Não, melhor nessa, aí o ar-condicionado vem direto, não faz bem. Assim. Você está muito bem.

– Houve um tempo em que eu ia exigir que você dissesse “você está bonita”. Não mais.

– Você está bonita.

– Não estou com fome.

– Nem eu. Estou com saudades.

– Quem diria: agora comemoramos aniversário de separação.

– Quatro anos.

– Já, já, alcançamos o tempo que vivemos juntos.

– Não foram tão ruins, vai. Garçom: dois chopes.

– Não, não: foram ótimos. Sério. Tivemos uma vida boa. Durou o que tinha que durar.

– Separamos de comum acordo. Sem mágoas.

– Sem brigas.

– Apenas não fazia mais sentido. “Que seja infinito enquanto dure.”

– Chegamos juntos à mesma conclusão.

– Duas pessoas civilizadas.

– O omelete aqui é muito bom. Para quem não está com muita fome…

– Nove anos. Uma vida.

– Não me lembro de uma briga séria nossa. Sério. Isso é raro entre casais. Sempre nos entendemos e nos respeitamos.

– Carla.

– Vixe. Conheço esse tom.

– Tem uma coisa que eu venho querendo dizer. Naquela época, quando foi cada um para um lado, eu tinha certeza de termos feito o certo. Hoje, não sei, sabia?

– Oi?

– Para você posso dizer.

– Você está bem?

– Não, sabe o que é? Pra você eu posso me abrir, quem me entende melhor que minha mulher?

– Mauro…

– Carla, nada aconteceu depois. Quando fiquei sozinho, achei que a vida ia ser uma farra, muitas mulheres, aventuras, noitada todo dia, viajaria sem parar, poderia beber tanto quanto quisesse, sem um olhar de reprovação.

– Na época, comecei a correr, fiz academia, perdi 6 quilos.

– Mas aconteceu tão pouco, Carla. Quase nada. Quase sempre o silêncio pesado de chegar em casa e não ter com quem conversar. Acabava dormindo sozinho, esparramado no sofá.

– Você ainda ronca?

– Pois é, nem isso eu sei! Sabe: logo a gente não vê mais tanta graça em poder assistir ao jogo na TV de cueca domingo de tarde.

– Que horror.

– Estou muito sozinho, Carla.

– Eu também, Mauro. Até tive dois namoros – meio ridículo falar “namoro”, né? Enfim. Mas acabaram tão rápido. E isso já faz anos. Não tenho ninguém há um bom tempo.

– Viu? Que mulher contaria isso para o ex-marido, em vez de tentar humilhá-lo com seus novos e maravilhosos casos?

– Eu nunca mentiria para você, Mauro. Muito menos para te machucar.

– Veja, Carla, eu não estou dizendo que estou sozinho. Estou dizendo que estou muito sozinho.

 – …

–  Há algum tempo venho pensando.

– Ê…

– E se a gente voltasse?

– Mauro!

– Sério: e se a gente voltasse a ficar junto? A gente se dá tão bem, nunca discute, somos a companhia perfeita um para o outro. A gente recomeçaria sem cobranças, sem expectativas.

– Meu Deus, o que você está dizendo, eu nunca… Não sei.  Caramba. Que doidera!

– O que a gente tem a perder? Um cuidaria do outro, como sempre fizemos. E vamos encarar a coisa: qual a probabilidade de um de nós encontrar um novo amor a essa altura do campeonato? Sinto tantas saudades de nossa vida, Carla.

– Eu também, eu também, mas…

– Por favor, Carla. Vamos recomeçar.

– Jesus. Vim comemorar aniversário de separação e recebo um convite de casamento.

– Esse sorriso bom. Essa leveza. Viu? É isso.

– Mauro…

– Garçons, dois omeletes. Mistos. O meu, mais mole. Ela gosta mais passadinho. E mais dois chopps.

     Ficaram se olhando em silêncio. As mãos, hesitantes. Buzinas vindas da rua. O trânsito estava mesmo ruim. Na calçada não passava ninguém.

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