-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

Este seu olhar

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Este seu olhar, quando encontra o meu, fala de umas coisas que não tem cabimento imaginar. Fala de silêncios e de uma distância que só anda de fasto, do improvável mais impossível, de desassoreamento, numa língua de difícil tradução.

Está certo que fala de mariscos e lula grelhada, de um vinho honesto, estrelas, goiabadas e Nina Simone. Assim como menciona (muito de leve) Chagall. Mas também fala de medo, muito medo, Nossa Senhora.

Discorre sobre o ridículo e a bananice do cidadão. Perguntas o olhar não faz. Mas faz sonhos que tiram o sono. Aquilo não é uma piscada, é a paisagem abrindo aspas. Convida a dar o passo e manda parar; se a gente propõe assunto, se cala. Muito mandão, este seu olhar.

Mesmo em silêncio, é impressionante como fala. É um olhar maritaca – não que seja alegre e escandaloso feito maritaca, ou verde. Mas grita por coisas que voam, tem horror a gaiola e arapucas, já caiu em algumas. O bom é que, de tanto falar em silêncio, o olhar libera a boca para os sorrisos.

Ou talvez seja tudo invenção minha, dessa miopia imagino um mundo. Sou ruim de ver e ouvir, pode ser que este seu olhar esteja dizendo um contrário que eu não quero admitir. Fico em dúvida se óculos ou aparelho esclareceriam alguma coisa.

Alguma vez este seu olhar falou de umas coisas que eu nem posso acreditar? Caso a resposta seja não, fale longe do microfone. Caso contrário, sussurre no rádio de pilha que eu ouço de madrugada, bem baixinho, encostado no ouvido para não acordar ninguém em casa.

Coisa espantosa: ele sabe falar outras línguas, particularmente a de Benedetti: “O sea / resumiendo / estoy jodido / y radiante / quizá más lo primero / que lo segundo / y también / viceversa.” Sou estrangeiro na língua que for. Ouço o que bem entendo, paciente e lunático. Atento ao que não devia.

E vem em cores, o danado. São tantas (toda a paleta entre castanho e mel), de íris tão brincalhonas, que a mim acabam dando branco.

Este seu olhar, quando encontra o meu, fala da falta monstruosa que Tom e Vinicius fazem ao Brasil.

Mas, quando encontra o meu, este seu olhar fala de um outro, procuro chamar a atenção, cantar em nepalês, recitar caipirices, mas a voz do meu olhar é fraca, quando não francamente irritante. Tento soletrar, mas ele embatuca – no máximo, sussurra, embaçado, e sempre para dentro da caverna.

Este seu olhar, quando encontra o meu, é essa maçada: não é comigo que ele quer falar.

 

 

 

 

loading...

Comentários no Facebook

Últimos de Cássio Zanatta

Madrugada

Claro que o vizinho foi ao banheiro. Você pode estar dormindo em

Assim, de repente

De uma hora pra outra, me vi emocionado numa queima de fogos.
Voltar p/ Capa