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Estou em missão

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não se deixe enganar pelo ar avoado. Este olhar para o alto que  desequilibra fácil o cidadão, o esquecimento conveniente, a surdez que faz que não ouve o chamado – tudo fingimento.

Posso explicar. Estou aqui em missão. Não quero parecer alarmista ou me fazer de importante, mas fui convocado com alguma urgência para, vamos dizer, afrouxar o nó, aliviar a carga, dividir o peso, segurar o tranco.

Fui chamado para escrever umas coisas. Dizer aquilo que não tem a menor importância. Algo que passasse despercebido, sem dar susto ou desesperança em ninguém. Umas linhas incapazes de tirar o sono, o contrário é até mais possível.

É uma missão menor, admito. Não zelo por misseis nucleares, não apito final de Copa, não resgato bebês em incêndios, não sou a última esperança de doentes terminais nem absolvo pecados.

Constate: não há heróis (salvo meus pais) ou acontecimentos retumbantes. Meus personagens são bichos, estrelas, ventos, sorvetes, carrapatos e até gente, desde que não seja dada a arroubos e não se preocupe com a humanidade.

Como toda missão com um quê de secreta, nunca sei quando serei acionado. Não sou eu quem decide, é algum anjo de quinta instância ou a alma de alguém morrendo de saudade da vida. Já recebi o objetivo da missão em folhas que o vento joga na cara, em previsões de realejo, até em comerciais de sabão em pó.

Então, um ente baixa em minha disponível figura e assume o controle das teclas. Gosto de provocar a aparição escutando Satie ou Rachmaninoff, lendo Drummond ou Szymborska ou comendo amendoim. Já percebi que a alma que me assume é chegada num amendoim, eu nem gosto tanto assim. Mas no fim quem tosse com a pelinha na garganta sou eu.

Enfim, sigo em missão. Procuro caminhar disfarçado pelas ruas, como quem está perdido no bairro (vai ver é isso mesmo), tento me confundir com as outras pessoas, até hoje não fui desmascarado, minha inabilidade nesse caso me ajuda. Fico exposto até que a luz me encontre e dê o recado ao som de um coral interior. Depois é só sentar à frente da tela e vomitar essas coisas pensadas por outro.

Espero que minha missão valha algo, seja de alguma ajuda. Os minutos que o leitor dedicou para me ler, por exemplo, que não tenham causado irritação ou arrependimento. Nem que seja para ele pensar, aliviado: “Nossa, olha que tem gente mais bocó do que eu.”

Recebo cumprimentos discretos. Minha missão está cumprida, sempre um alívio. Mas daqui a algumas semanas já será verão. Eis que recebo uma convocação disfarçada no zumbido de um pernilongo.

 

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